Jurandir Soares

Virada na eleição americana

Com a especulação de que Kamal Harris será a candidata à Casa Branca, vem também a indagação de quem será o vice-presidente

A desistência do presidente Joe Biden de candidatar-se à reeleição dá novos e impactantes rumos ao pleito de 5 de novembro. Aquela questão básica de que o atual mandatário não tem condições físicas e mentais para enfrentar outro mandato, deixa de existir. Agora torna-se certo que o republicano Donald Trump irá enfrentar um candidato bem mais novo que ele e com plenas condições de saúde. A convenção do Partido Democrata, marcada para 19 de agosto, deve definir esse nome. No entanto, tudo está indicando que a atual vice presidente Kamala Harris será a candidata democrata.

Trump, como bom marqueteiro que é, já declarou que com Kamala sua vitória será mais fácil. Discurso de campanha, evidentemente, porque tem saído informações da cúpula republicana de que o sentimento no partido é de que a situação se torna mais difícil. Afinal, se confirmada a indicação de Kamala, o seu atributo, além de ser uma jurista que foi promotora e procuradora de Justiça na Califórnia, é de ser mulher, negra e com origem asiática e caribenha. Sua mãe é indiana e seu pai jamaicano. Aspectos que pesam muito no atual contexto em que se valoriza muito questões de gênero, de raça etc. Além disto, a questão de idade avançada, que pesava sobre Biden, agora passa a agir contra Trump, que está com 78 anos.

Seja quem for o candidato democrata, o fundamental para buscar a vitória, será manter a moderação que foi uma marca de Joe Biden. Algo que já foi cobrado na eleição anterior, quando a esquerda mais radical democrata, comandada por Bernie Sanders, queria impor como política de governo uma filosofia esquerdista. Kamala, inclusive, fazia parte dessa corrente. Como vice, aderiu à moderação de Biden. Para ser candidata terá que seguir assim.

Tudo por enquanto são especulações. E dentro desta especulação de que Kamala será a candidata democrata, vem também a indagação sobre quem será companheiro de chapa, como vice. E, neste caso, uma coisa parece certa: com Kamala, o vice será homem e governador de um estado pêndulo. Ou seja, daqueles estados que têm um número significativo de delegados e cujo eleitorado tem balançado, ora para republicanos, ora para democratas. Neste caso, dois nomes despontam. Roy Cooper, de 67 anos, governador da Carolina do Norte, e Josh Shapiro, de 51 anos, governador da Pensilvânia. Há ainda o nome da governadora do Michigan, Gretchen Whitmer, de 52 anos. Mas, neste caso, teríamos duas mulheres compondo a chapa, o que não é recomendado em termos de ampliação do espectro eleitoral. Se fosse para ter duas mulheres, o nome mais indicado para secundar Kamala seria o de Michelle Obama, que goza de enorme popularidade. Mas, além de tudo, ela tem enfatizado que não quer ser candidata a nenhum cargo político.

A pá de cal para a derrubada da candidatura de Biden foi o debate com Donald Trump. Assim, fica a expectativa sobre o próximo confronto televisivo entre o republicano e o candidato democrata, especialmente, se este for Kamala Harris. As pesquisas apontam empate técnico entre ambos. E, muito embora alguns digam que Biden demorou muito para renunciar, tradicionalmente, é a partir de agosto que a eleição ganha força. Portanto, não há perda para os democratas em termos de tempo para a campanha.

O nome deverá ser oficializado na convenção de 19 de agosto, no entanto, pelo sistema, muito antes disto os delegados regionais já vão se manifestando sobre o candidato. E como até há pouco o candidato era Biden, os delegados foram referendando o nome dele. Entretanto, ao desistir da candidatura, Biden libera os delegados para apoiar quem eles desejarem. Isso abre a porta para o que se chama de uma convenção aberta, onde interessados na candidatura negociariam e fariam campanha diretamente com os delegados, e quem conseguir uma maioria simples de 1.968 votos será o candidato à Casa Branca.

Assim é que entre os democratas, até agora, a única coisa certa é de que Joe Biden não será o candidato do partido à presidência. Mas, também é inquestionável, que a campanha eleitoral ganha um novo e empolgante impulso.