Se mantiver sua estratégia de negócios, o presidente norte-americano, Donald Trump, deverá acenar, nos próximos dias, com medidas mais amenas para o Brasil. Isto porque a tática que ele consagrou, tanto nos seus negócios como na presidência da República, é a do “morde e assopra”. Ou, como também pode ser chamada, a técnica “agressivo-passiva”.
Esta tática foi utilizada até com o principal rival comercial dos EUA, a China. É só observar que a tarifa que fora elevada a 145% acabou ficando em 30% para Pequim. É claro que no caso da China havia um componente importantíssimo para os EUA que são as chamadas terras raras. Na pauta de exportações do Brasil para o mercado norte-americano não há um produto dessa importância. Mas são produtos que já marcaram lugar naquele mercado.
INCERTEZA
Ainda assim, sua estratégia de alternar ameaças e recuos, foi apelidada por investidores de Wall Street de “TACO Trade (Trump Always Chickens Out)”, ou, numa versão mais simplificada, “Trump sempre amarela”. Esta tática mina a credibilidade ao impor tarifas altas, recuá-las sob pressão e depois retomá-las. Consideram que ele gera instabilidade para empresas e consumidores.
Vale lembrar também que, para a União Europeia, ele decretou inicialmente uma tarifa de 50%, porém depois recuou dando prazo até final de julho para negociação. O prazo para o Brasil ficou em 1° de agosto. Período que têm os negociadores dos dois lados para buscar um acordo. Estas negociações estavam avançando, até Trump anunciar seu tarifaço de 50% para o Brasil.
COMPONENTE
O fato é que Trump colocou o comércio internacional no centro da sua estratégia geopolítica, reacendendo disputas tarifárias e retomando negociações com alguns dos principais parceiros comerciais dos Estados Unidos. No entanto, sua abordagem, marcada por improvisos, ameaças e recuos, tem produzido mais incertezas do que consensos duradouros.
No caso brasileiro, a interferência de Trump tem um agravante político que é a defesa que faz do ex-presidente Jair Bolsonaro, com a decorrente crítica à credibilidade da Justiça brasileira. Aliás, esta questão foi um tiro no pé para o bolsonarismo, pois deu margem ao desacreditado governo Lula acusar o grupo de antipatriota.
A propósito, Bolsonaro perdeu uma grande oportunidade de fazer um pronunciamento forte, agradecendo ao presidente Trump pelo apoio que lhe dava, mas pedindo ao mesmo que levantasse as taxas impostas ao Brasil. Estaria somando junto à população brasileira, porém ficou na omissão.
GUERRA
Estes avanços e recuos de Trump têm se refletido até na questão da guerra que a Ucrânia enfrenta com a Rússia. Num primeiro momento, se disse amigo de Vladimir Putin e que iria terminar com a guerra. Num segundo, disse que Putin não era confiável e que queria continuar com a guerra.
Assim também foi em relação ao envio de armas para a Ucrânia. Semana passada, anunciou que não enviaria mais ajuda. Nesta terça-feira, declarou que vai mandar os sistemas antimísseis Patriot, de que a Ucrânia tanto necessita para se defender.
DIPLOMACIA
Assim é que, diante deste quadro, a hora para o Brasil não é de enfrentamento, mas de dar um tempo. E colocar a diplomacia em campo. Não mandar chamar a embaixadora brasileira em Washington, conforme foi cogitado. Hora de o Itamaraty entrar em campo. Mas não pode ser com o viés político de Celso Amorim, que é o principal assessor de Lula para os assuntos internacionais. Lembrando que foi o antiamericanismo de Lula e de seus parceiros do Brics o fator principal que Trump levou em consideração para impor as taxas ao Brasil.
Não podemos esquecer que estamos tratando com o nosso segundo mais importante parceiro comercial. E, quer os integrantes do governo brasileiro aceitem ou não, o certo é que estamos diante da maior potência do planeta. E não restam dúvidas sobre quem tem mais recursos para a briga.
A aposta tem que ser no histórico de Trump de morde e assopra. Na esperança de que esse assopro venha antes de que se estabeleçam maiores estragos nas relações entre os dois país.
