Luiz Coronel

A avó

Memórias de nossas antigas avós. 26 de julho – Dia dos Avós

Nada mais só

do que o quarto

da avó.

O pai,

a mãe,

nas trincheiras do mundo.

A avó faz biscoitos

e estende o xale

sobre nós.

O rádio,

o abajur,

a cadeira de balanço,

tudo vem lá do fundo do tempo.

A avó

é colega de infância

de antigos profetas.

Seus personagens

prediletos

estão encarcerados

na moldura dos retratos.

O mundo correu demais.

No relógio dos avós,

os ponteiros dançam valsas.

A penumbra da sala

mais convém

do que o neon das avenidas.

A agulha de crochê,

os óculos

e gavetas fechadas

onde se escondem cartas e sigilos

que contestam

a placidez de agora.

Quando a avó suspira,

sente saudades

de seus pecados.