Luiz Coronel

A história sem ornatos

Poeta Luiz Coronel cria os seus versos em homenagem à Independência do Brasil, com um resgate histórico e poético

Quadro "Independência ou Morte (O Grito do Ipiranga)", de Pedro Americo (1888), que está lotado no Museu Paulista, em São Paulo
Quadro "Independência ou Morte (O Grito do Ipiranga)", de Pedro Americo (1888), que está lotado no Museu Paulista, em São Paulo Foto : Pedro Américo / Reprodução / CP

“O Brasil marca encontro com a história e não comparece.”

Posto que ventava, entre espirros

aportou Cabral.

Enforcaram Beckman,

esquartejaram Joaquim,

o príncipe deu um grito

e continuou tudo assim.

Com rimas incendiadas,

Castro Alves ditou a abolição.

Isabel rabiscou,

pelo sim, pelo não.

Ruy discursa com Patrocínio,

e o Império rui.

Deodoro, não demores.

E não desças do cavalo,

pois vais virar estátua.

Obesos e safados, os coronéis

tomaram o poder num café com leite.

A Coluna está prestes a avançar.

Eu sou Getúlio, ditador e democrata.

Ponto final: uma bala.

A nação chora. E cala.

JK é faraó. Jânio, doido. E só.

Reis e peões armam o xeque.

Jango cai. O país põe o quepe.

Caça-se no castelo.

Não “mede-se” a violência.

Está tudo torto. Diretas já!

Um corte da morte

e fica tudo como está.

Os planos são cruzados

em longos fios de bigode.

Vem das Alagoas

o caçador de marajás.

Os caras-pintadas lotam as ruas.

Topetes ao vento

e nudez nos camarotes,

é o Brasil de Itamar.

Navega nostálgica

a esquadra da esquerda.

Montado no Real,

cavalgou Dom Henriques

sob os ventos

da social-democracia.

Lula pula,

o povo tem gula

e direito

a fatias do bem-estar.

Sob o mando de uma dama,

cresce o bolo da discordância.

Cai a rainha, mas permanece

a corte, com seus eunucos,

vice-reis e valetes.

Temos um governo temeroso.

O pêndulo do tempo balança,

entre ansiosas esperanças

e temível desalento