Mas, afinal, quem dá corda
ao relógio da História?
Serão, por acaso, os heróis
de decantada memória?
Eu pergunto: quem ao homem
traz mais digna ventura?
O solene parlamentar
ou a moça da floricultura?
No árduo frigir dos ovos,
quem fecunda a alegria?
Será o megainvestidor
ou o Joaquim da mercearia?
Quem fez girara as roldanas
pra que o tempo não parasse?
As togadas excelências
ou o plantador de alface?
O homem que colhe uvas
e serve tua taça de vinho
bem mais faz que as majestades
com suas capas de arminho.
Dormem em sono de bronze,
heróis que a História cultua.
No árido chão cotidiano,
os garis varrem as ruas.
Em todo repasse do tempo,
comícios e microfones,
esquecem quem tece o tempo:
a gente simples, sem nome.
