Luiz Coronel

A história revista em um banco de praça

Poeta Luiz Coronel tece versos sobre a história passando pelo poeta em um momento qualquer do cotidiano

Luiz Coronel: "A rua é o berço dos fatos./ Ninguém sabe quem tu és./ O tempo é o suor na testa/ do vendedor de picolés."
Luiz Coronel: "A rua é o berço dos fatos./ Ninguém sabe quem tu és./ O tempo é o suor na testa/ do vendedor de picolés." Foto : Luis Gonçalves / CP Memória

Mas, afinal, quem dá corda

ao relógio da história?

Serão, por acaso, os heróis

de decantada memória?

Pergunto: quem ao homem

traz mais digna ventura?

O solene parlamentar

ou a moça da floricultura?

No árduo frigir dos ovos

quem fecunda a alegria?

Será o megainvestidor

ou Joaquim, da mercearia?

Quem faz girar as roldanas

pra que o tempo não parasse?

As togadas excelências

ou o plantador de alface?

O homem que colhe uvas

e serve tua taça de vinho

bem mais faz que majestades

com suas capas de arminho.

O menino e sua pandorga

voando sobre os telhados

importa mais que o inventor

de mísseis teleguiados.

A mais simples quituteira

de quindins e brigadeiros

conhece melhor seu ofício

que arrogantes marqueteiros.

Um palhaço entre crianças,

com chafariz na gravata

traz mais alegria ao mundo

que todo e qualquer burocrata.

A rua é o berço dos fatos.

Ninguém sabe quem tu és.

O tempo é o suor na testa

do vendedor de picolés.

O chapéu do mestre-cuca

é a coroa de um rei.

Quem toca sua flauta doce

confere ao mundo outras leis.

Os modestos pescadores,

ante o sol ou céu nevoento,

arrastam o barco da história

com remos pesados e lentos.

Dormem em sono de bronze

heróis que a história cultua.

No árido chão cotidiano,

os garis varrem as ruas.

Em todo repasse do tempo,

nos jornais e microfones,

esquecem quem tece o tempo:

a gente simples, sem nome.