Mas, afinal, quem dá corda
ao relógio da história?
Serão, por acaso, os heróis
de decantada memória?
Pergunto: quem ao homem
traz mais digna ventura?
O solene parlamentar
ou a moça da floricultura?
No árduo frigir dos ovos
quem fecunda a alegria?
Será o megainvestidor
ou Joaquim, da mercearia?
Quem faz girar as roldanas
pra que o tempo não parasse?
As togadas excelências
ou o plantador de alface?
O homem que colhe uvas
e serve tua taça de vinho
bem mais faz que majestades
com suas capas de arminho.
O menino e sua pandorga
voando sobre os telhados
importa mais que o inventor
de mísseis teleguiados.
A mais simples quituteira
de quindins e brigadeiros
conhece melhor seu ofício
que arrogantes marqueteiros.
Um palhaço entre crianças,
com chafariz na gravata
traz mais alegria ao mundo
que todo e qualquer burocrata.
A rua é o berço dos fatos.
Ninguém sabe quem tu és.
O tempo é o suor na testa
do vendedor de picolés.
O chapéu do mestre-cuca
é a coroa de um rei.
Quem toca sua flauta doce
confere ao mundo outras leis.
Os modestos pescadores,
ante o sol ou céu nevoento,
arrastam o barco da história
com remos pesados e lentos.
Dormem em sono de bronze
heróis que a história cultua.
No árido chão cotidiano,
os garis varrem as ruas.
Em todo repasse do tempo,
nos jornais e microfones,
esquecem quem tece o tempo:
a gente simples, sem nome.
