Luiz Coronel

A ordenação das lembranças

Luiz Coronel: "Algumas lembranças são travessas./ Escondem-se atrás das árvores/ e gritam meu nome/ em falsete".
Luiz Coronel: "Algumas lembranças são travessas./ Escondem-se atrás das árvores/ e gritam meu nome/ em falsete". Foto : Freepik / Creative Commons / Reprodução / CP

Bem que eu queria

ordenar minhas lembranças,

tê-las em procissão,

cânticos nos lábios,

lâmpadas votivas nas mãos.

Qual! Elas disparam

tal fugitivas

e retornam trôpegas,

fustigadas.

Algumas lembranças

são travessas.

Escondem-se atrás das árvores

e gritam meu nome

em falsete.

O hálito embaça

a vidraça onde desenho

anjos, gatos e patos,

à espera dos tios.

Algumas recordações

pregam-se ao rosto

qual mariscos às pedras.

Padeira dos sonhos,

artesã dos pesadelos,

a memória pendura no cinto

as chaves da alma.

Algumas lembranças

nos sustentam

como a corda ao enforcado.

Algumas, movem-se

na sombra,

Outras, têm claras lanternas.

As lembranças

são minhas estrelas cativas,

imperceptíveis algemas.