Luiz Coronel

A reconstrução dos sonhos

“O amor é um sonho impossível de ser um quando se é dois.” Lacan

Quadro surrealista "A Persistência da Memória", de Salvador Dalí
Quadro surrealista "A Persistência da Memória", de Salvador Dalí Foto : Moma / Reprodução / CP

São curtos os tapetes da alma.

O tempo desce de sua bicicleta.

Penso que exista um país fora do tempo.

Lá, tudo é sempre.

Será, talvez, um depósito onde o tempo

Guarda sua herança e sua fuligem?

Às vezes, um anjo notívago nos conduz,

entre cômodos e nimbos,

ao reino fosco e misterioso de outrora.

Espiamos pela fechadura.

Lá estamos nós, nítidos e jovens,

plenos de luz no riso e sombras no olhar.

Viajamos por décadas e léguas

e, subitamente, despertamos dos escombros

de nossos sonhos.

Pasmos, descobrimos que os fantasmas

que nos habitam somos nós mesmos.

Envoltos nos brancos lençóis

da memória, eles rondam os esconderijos

de nossos mais íntimos segredos.

Não retornam à ramagem as folhas

levadas pelo vento.

Porque a memória insiste a que lembremos

o que vivemos outrora?