Luiz Coronel

“Havia um mar de amor dentro de mim”

Poeta Luiz Coronel homenageia o verão e o amor com seus versos nesta semana

Naquele verão distante,

o adeus estendera seu domínio

sobre todas as palavras

do dicionário.

Ele vinha na ladainha

das ondas,

na borda das taças,

no hálito da maresia.

Soltos, praia afora,

pressentíamos que no outono

seríamos folhas

levadas pelo vento.

No ritual dos hidratantes,

o barco de minhas mãos

navegava por costas

de dourada nudez.

Um amor ansioso

entrelaçava dois corpos

cúmplices no naufrágio.

O adeus habitava

nosso silêncio

qual a ostra sua concha.

Mas não permitíamos

que o sal das lágrimas

turvasse

o esplendoroso escândalo

da paisagem.

Veleiros sem âncoras,

entregues aos ventos,

singrávamos

revoltas mágoas.

Na solidão da noite,

a lua nova inaugurava

passarelas de prata

para insones sereias.

Por desertas extensões

esperávamos que a maré

trouxesse

a estrela-do-mar.

E o voo das gaivotas

agitava brancos lenços

em prenúncios de despedida.

Naquele verão distante,

“havia um mar de amor

dentro de mim”.