Naquele verão distante,
o adeus estendera seu domínio
sobre todas as palavras
do dicionário.
Ele vinha na ladainha
das ondas,
na borda das taças,
no hálito da maresia.
Soltos, praia afora,
pressentíamos que no outono
seríamos folhas
levadas pelo vento.
No ritual dos hidratantes,
o barco de minhas mãos
navegava por costas
de dourada nudez.
Um amor ansioso
entrelaçava dois corpos
cúmplices no naufrágio.
O adeus habitava
nosso silêncio
qual a ostra sua concha.
Mas não permitíamos
que o sal das lágrimas
turvasse
o esplendoroso escândalo
da paisagem.
Veleiros sem âncoras,
entregues aos ventos,
singrávamos
revoltas mágoas.
Na solidão da noite,
a lua nova inaugurava
passarelas de prata
para insones sereias.
Por desertas extensões
esperávamos que a maré
trouxesse
a estrela-do-mar.
E o voo das gaivotas
agitava brancos lenços
em prenúncios de despedida.
Naquele verão distante,
“havia um mar de amor
dentro de mim”.
