Venta o vento no arvoredo,
chove a chuva na cumeeira.
No quarto da noite escura,
é teu corpo minha lareira.
A cidade está dormindo,
não despertem sua atenção.
A cidade está coberta
com as colchas da cerração.
Chove chuva chuvinheira
A calçada é um riacho
O barquinho vai levando
minha infância rua abaixo.
Ontem à meia-noite,
quem estava acordado assistiu
moradores de rua e estátuas
espirrando de tanto frio.
No aquário dos sapatos,
sinto os pés como dois peixes.
Há três dias que nas calhas
lê a chuva o mesmo texto.
A lua nova, lá no alto,
com o inverno se depara,
por isso ela se enrosca
no poncho das nuvens claras.
A neve vinha de leve
flutuando no céu assim,
pensei, estão depenando
arcanjos e querubins.
No cinza da tarde cinza,
deparo teu riso claro.
Tuas mãos são minhas luvas,
e teu corpo, meu amparo.
