Luiz Coronel

Mia Couto, humano, densamente humano

“Acho que sou um poeta que conta histórias. [...]

Preciso estar em completa paixão.” Mia Couto

Os contos de Mia Couto

beijam a mão da poesia

antes de sair a correr mundo.

O poeta bem conhece a dúctil substância

dos sonhos e a áspera experiência dos dias.

O continente de sua obra

é banhado por vagas de inquietude,

mas nem por isso deixa de florescer

em suas margens a exuberante vegetação

da esperança.

Seus personagens libertam-se da fuligem

das guerras e partem para a redescoberta

do amor, a edificação de um teto, a redação

de uma história.

A imaginação e a memória lavram

seu testamento rútilo, febril, envolvente,

revelando que o milagre da vida

eleva-se sobre os escombros das desavenças.

Para testemunhar a sacralidade da vida,

a África, o continente mágico dos tambores,

onde o mistério é cotidiano, qual o pão,

comparece, imbatível, na obra de Mia Couto.

Com maestria, o prosador-pintor

apodera-se das cintilantes cores da fantasia

que vestem alma e corpo da humilde gente

de seu país-continente!

Somos gratos por esse legado de fé,

lucidez sinfônica, meditação corajosa,

dádiva literária, cuja receita evolve os temperos

que conferem a nós todos

o sabor do mais puro encantamento.