“Acho que sou um poeta que conta histórias. [...]
Preciso estar em completa paixão.” Mia Couto
Os contos de Mia Couto
beijam a mão da poesia
antes de sair a correr mundo.
O poeta bem conhece a dúctil substância
dos sonhos e a áspera experiência dos dias.
O continente de sua obra
é banhado por vagas de inquietude,
mas nem por isso deixa de florescer
em suas margens a exuberante vegetação
da esperança.
Seus personagens libertam-se da fuligem
das guerras e partem para a redescoberta
do amor, a edificação de um teto, a redação
de uma história.
A imaginação e a memória lavram
seu testamento rútilo, febril, envolvente,
revelando que o milagre da vida
eleva-se sobre os escombros das desavenças.
Para testemunhar a sacralidade da vida,
a África, o continente mágico dos tambores,
onde o mistério é cotidiano, qual o pão,
comparece, imbatível, na obra de Mia Couto.
Com maestria, o prosador-pintor
apodera-se das cintilantes cores da fantasia
que vestem alma e corpo da humilde gente
de seu país-continente!
Somos gratos por esse legado de fé,
lucidez sinfônica, meditação corajosa,
dádiva literária, cuja receita evolve os temperos
que conferem a nós todos
o sabor do mais puro encantamento.
