No armazém das tradições,
do que tem não falta nada.
O passado paga a conta
enfiando notas na espada.
Na ferrugem das adagas,
o tempo deixou inscrito
que no silêncio da lâmina
dormem soluços e gritos.
No armazém passam gaudérios,
de relance, num lampejo,
compram alpargatas e lendas,
e compram causos e queijos.
Há um barril de medalhas
que se abre a duro custo.
Nos retratos das paredes,
convivem tiranos e justos.
No armazém das tradições,
compram-se pilchas e arreios.
Combatentes dançam chula,
alheios ao tiroteio.
No armazém das tradições,
comprei metros de cultura.
Aos heróis, licor da glória.
Aos demais, caninha pura.
No pedestal das estátuas,
dormem mendigos e cuscos.
O futuro abre a porta,
o presente leva um susto.
No telhado, a lua cheia,
alheia, dorme de bruços.
