Luiz Coronel

O armazém das tradições

Gaúcho com provisões
Gaúcho com provisões Foto : Guilherme Testa / CP Memória

No armazém das tradições,

do que tem não falta nada.

O passado paga a conta

enfiando notas na espada.

Na ferrugem das adagas,

o tempo deixou inscrito

que no silêncio da lâmina

dormem soluços e gritos.

No armazém passam gaudérios,

de relance, num lampejo,

compram alpargatas e lendas,

e compram causos e queijos.

Há um barril de medalhas

que se abre a duro custo.

Nos retratos das paredes,

convivem tiranos e justos.

No armazém das tradições,

compram-se pilchas e arreios.

Combatentes dançam chula,

alheios ao tiroteio.

No armazém das tradições,

comprei metros de cultura.

Aos heróis, licor da glória.

Aos demais, caninha pura.

No pedestal das estátuas,

dormem mendigos e cuscos.

O futuro abre a porta,

o presente leva um susto.

No telhado, a lua cheia,

alheia, dorme de bruços.