Luiz Coronel

O cego e o mar

No último sábado de fevereiro, Luiz Coronel volta ao tema do mar em sua coluna semanal de poesia

Ambiental de domingo em Capão da Canoa
Ambiental de domingo em Capão da Canoa Foto : Pedro Piegas

De braços abertos

acolhe a maresia.

Ergue o rosto aos céus,

anunciando

as chuvas vindouras.

O tato lhe revela

a cor dos guarda-sóis.

Sabe o nome dos vendedores

de chapéus e picolés.

Venceu a batalha

contra os parentes

que lhe negavam

o direito de surfar.

A cada manhã alimenta

os peixes e as gaivotas.

Constrói castelos de areia

que hospedam

os caranguejos e as marés.

Joga espumas sobre

os olhos nublados

à espera de um milagre.

Entoa cantigas antigas

que falam de barcos e remos.

Guarda caracóis na mochila.

Mesmo em casa lhe apetece

ouvir a murmurante

cantilena do mar.