Luiz Coronel

O cego e o mar

Poeta Luiz Coronel tinge com versos a relação intrínseca de um homem que não vê com o oceano

De braços abertos,

acolhe a maresia.

Ergue o rosto aos céus,

anunciando

as chuvas vindouras.

O tato lhe revela

a cor dos guarda-sóis.

Sabe o nome dos vendedores

de chapéus e picolés.

Venceu a batalha

contra os parentes

que lhe negavam

o direito de surfar.

A cada manhã alimenta

os peixes e as gaivotas.

Constrói castelos de areia

que hospedam

os caranguejos e as marés.

Joga espumas sobre

os olhos nublados

à espera de um milagre.

Entoa cantigas antigas

que falam de barcos e remos.

Guarda caracóis na mochila.

Mesmo em casa lhe apetece

ouvir a murmurante

cantilena do mar.