Luiz Coronel

O Turista Cego

No dia 16 de julho - Lançamento do novo livro “Testemunha Ocular” no Teatro Renascença

Sou um turista cego,

se perguntarem o que sinto.

Sou um anjo desplumado

voando em seu labirinto.

As vitrines estão vazias.

Os manequins e estilistas

fugiram apavorados

de uma gangue de nudistas.

Se passo por livrarias,

dou fuga de ventania.

O que foi paixão e convívio

se tornou silêncio e apatia.

Em meu itinerário,

não sigo torpes veredas.

Em meu vocabulário,

há um inventário de perdas.

Turistas são peregrinos

em uma profana jornada.

Andejam em busca de tudo,

vagam à procura de nada.

São pássaros migratórios

que voam entre obeliscos.

Sim, são entes coletivos,

exclamativos e aflitos.

Se ostento alegria,

é bem mais do que coragem,

pois a mala da tristeza

se extraviou da bagagem.

O que quero em terra estranha

onde não sou esperado?

Quem quer encontrar a si mesmo

deve buscar-se aos pedaços.

Nos cegos, o sexto sentido

roteiriza suas vivências.

As cidades dão aos cegos

as mais nuas confidências.

Ó, cidade em volta, em névoa,

que aos meus olhos se alcança!

Tuas ruas são rios da história

fluindo miséria e pujança.