Sou um turista cego,
se perguntarem o que sinto.
Sou um anjo desplumado
voando em seu labirinto.
As vitrines estão vazias.
Os manequins e estilistas
fugiram apavorados
de uma gangue de nudistas.
Se passo por livrarias,
dou fuga de ventania.
O que foi paixão e convívio
se tornou silêncio e apatia.
Em meu itinerário,
não sigo torpes veredas.
Em meu vocabulário,
há um inventário de perdas.
Turistas são peregrinos
em uma profana jornada.
Andejam em busca de tudo,
vagam à procura de nada.
São pássaros migratórios
que voam entre obeliscos.
Sim, são entes coletivos,
exclamativos e aflitos.
Se ostento alegria,
é bem mais do que coragem,
pois a mala da tristeza
se extraviou da bagagem.
O que quero em terra estranha
onde não sou esperado?
Quem quer encontrar a si mesmo
deve buscar-se aos pedaços.
Nos cegos, o sexto sentido
roteiriza suas vivências.
As cidades dão aos cegos
as mais nuas confidências.
Ó, cidade em volta, em névoa,
que aos meus olhos se alcança!
Tuas ruas são rios da história
fluindo miséria e pujança.
