Luiz Coronel

Tempos profanos

Versos semanais de Luiz Coronel em sua coluna no Caderno de Sábado

Verde é a verdade.

Urge sacralizar a terra,

ó tempos profanos!

Malsinados sejam

os que empalham araras,

cassam a carteira de voo

das borboletas

e impõem a lei do silêncio

sobre bem-te-vis.

Vede: com que sede

as raízes lambem os lábios da terra,

sugando o sumo das laranjeiras.

Vede: os ramos da roseira

são elevadores por onde sobem

aromas e cores que explodem

no corpo das rosas.

Com um punhado de terra nas mãos,

a natureza opera seus prodígios.

Saltam samambaias dos túmulos,

nascem petúnias

entre as ossadas dos javalis.

Que multidões nas praças

julguem os que afogam os peixes,

defloram as margaridas

e ensinam impropérios

aos morangos.

O sol negará sua luz,

e a lua, seu lenço

aos que unham,

mordem e sangram

o fértil seio da terra.