A falta que Tonito vai fazer

A falta que Tonito vai fazer

Coluna de Luiz Gonzaga Lopes homenageia o jornalista e escritor Antônio Canabarro Tróis Filho, falecido no último dia 22, às vésperas de completar 94 anos

Luiz Gonzaga Lopes

Antônio Canabarro Tróis Filho, o Tonito, autografando o volume 3 de seu livro de crônicas "Gente é Mais Importante"

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PENSADOR SOCIAL

Antônio Canabarro Tróis Filho, o Tonito, nasceu em São Francisco de Assis, em 27 de novembro de 1926. O soldado humanista que iluminou os meus caminhos e os de vários intelectuais de Canoas e Porto Alegre morreu na última quinta, 22 de outubro. Mentor, amigo, confidente. Quando trabalhei na imprensa de Canoas, era praticamente um consultor. Autor de mais de uma dezena de livros, entre os quais “Gente é Mais Importante - Volume 3 - Crônicas” (2017) “Hino das Vilas”, de 1967, mas publicado em 1994, o mais pungente poema social já escrito sobre uma cidade, destas vilas tangíveis que aprendemos a amar, sobre as enchentes que assolaram Canoas e outras mazelas. Quantas foram as conversas sobre literatura, sobre Jorge Luis Borges, Amado Nervo, Flaubert, Tolstói. Ninguém levou mais a sério a máxima do russo de Iasnáia Poliana do que Tonito, que cantou a sua aldeia canoense e foi o mais universal dentre todos. Residente em Canoas desde 1941, fundador dos jornais O Momento (1955) e O Timoneiro (1966), Tonito foi um grande pensador social, incensado por companheiros nas letras como Jéferson Assumção, Valesca de Assis e Walter Galvani, que o levou nos anos 1960 a ser cronista da Folha da Tarde. Patrono da Feira do Livro de Canoas em 1999, o iluminismo e humanismo de Tonito exalaram entre todos os seus amigos, com sua generosidade, apoio a jornalistas, escritores e artistas emergentes, como foi o caso de Gelson Radaelli, artista visual que teve seu primeiro cartum publicado em O Timoneiro, e assistiu à fundação da República das Artes, em Canoas, no início dos anos 1980. Uma lacuna impreenchível. 

 

HINO DAS VILAS 
Arqueiro anoitecido
o céu derruba setas
geladas. O sofrido
povo da vila quieta
pagando imerecido 
preço pela dileta
aspiração de viver!
Agulhas d’água tecem
negros véus. Fraco querer
das vidas que adormecem
à beira do rio. Fazer
uma reza! Não conhecem
os deuses que falharam. 
A sua tristeza é legal:
contratos assinaram
- lívidos papéis que ao sal
de seus suores murcharam. 
Limpas, isentas do mal, 
as efígies dos selos
(heróis desamparados)
aderem ao desvelo
frio dos dedos errados
o sol era um martelo
na bigorna do fado
Forjando testemunhas
cegas. As topografias
traçaram com as unhas
nas terras sem alegria
os lotes em que punhas,
Deus, quando amor havia...
(continua)

Canabarro Tróis - “Hino das Vilas”, poemeto histórico de 1967 editado em 1994 pela coleção Cadernos Canoense

 

"O livro é um conselheiro, um companheiro, um amigo, a matriz do saber, uma 
ferramenta de evolução cultural. Deveria ser mais barato, pois o Brasil precisa de mais educação e cultura. Não tenho últimos livros, pois leio vários ao mesmo tempo, mas acabei e estou relendo ‘Socialismo e Espiritismo’, de Léon Denis e ‘As Palavras de Jesus’, de Lev Tolstói". 

Antônio Canabarro Tróis Filho - Outubro de 1996


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