Luiz Gonzaga Lopes

Boas vibrações e misticismo impulsionam o turismo na Serra da Mantiqueira, em Minas

A cidade de São Thomé das Letras, com 7,1 mil habitantes, preza pela natureza e pelas questões místicas, com mais de 19 mil leitos de hoterlaria a 346 km da capital mineira

São Thomé das Letras vista da parte alta desde o Parque Municipal Antônio Rosa
São Thomé das Letras vista da parte alta desde o Parque Municipal Antônio Rosa Foto : Tamas Bodolay / Divulgação / CP

A narração em primeira pessoa em discurso livre direto é um recurso muito utilizado na literatura para que haja a construção de um elo entre o escritor e o leitor. Ao visitar São Thomé das Letras, em Minas Gerais, mesmo sendo jornalista e acostumado a escrever na terceira pessoa, de forma mais informativa, é impossível não se colocar dentro da narrativa desta cidade com 7,1 mil habitantes e que possui mais de 19 mil leitos, chegando a mais de 40 mil pessoas em alta temporada. E quais seriam as razões que levariam os turistas a este afluxo desmesurado, em sua maioria de mineiros, paulistas e cariocas?

Primeiro precisamos dizer que este município no sudeste de Minas Gerais, a 346 km de Belo Horizonte, é um local que emana vibrações desde o momento da chegada. Os motivos são vários. O primeiro é o ar rústico, a localização montanhosa, sendo situada a mais de 1,5 mil metros acima do nível do mar, com cachoeiras e grutas e muito turismo místico e de aventura. A energia da cidade tem um pouco a ver com a extração de pedras em São Thomé, do quartzito, que tem uma radioatividade e seria a fonte de energia do local, no qual alguns habitantes afirmaram ter visto OVNis e onde o sol é aplaudido quando se pôe.

Alguns acreditam que São Thomé é um dos sete pontos energéticos da Terra.

Uma cidade com dezenas de cachoeiras e grutas. São Thomé das Letras é considerada um dos principais turísticos de Minas Gerais, em se tratando de turismo de aventura e místico. O entusiasmo pela natureza e o misticismo desenvolvem o turismo local. O comércio tem nomes de estabelecimentos no mínimo incomuns como Senhor dos Anéis, Metamorfose Café e Bar, Casa das Bruxas, Pousada Aliens, restaurante das Magas e O Alquimista. Tudo isso em ruas que remontam a pedras do início do século XVII. O Centro Histórico foi tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais em 1996. A igreja começou a ser construída em 1785, com estilo barroco do lado de fora e possui retábulos do período rococó no lado de dentro e o forro marcado pelos afrescos do artista colonial Joaquim José da Natividade, que muitos afirmam ter sido discípulo de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho. A restauração atual está sendo feita pelo artista Carlos Magno.

Em meio à natureza, destacam-se o Parque Antônio Rosa, onde estão localizadas a Pedra da Bruxa e a Casa da Pirâmide. É lá que milhares de pessoas ficam agrupadas para aplaudir o belo pôr do sol. As grutas do Labirinto e Sobradinho são outra experiência inesquecível, bem como a Cachoeira Véu de Noiva e a corredeira Shangri-lá, entre outras.

O prefeito da cidade Donizete Flausino da Rocha, o Zete, destaca que a mística que envolve a região tem muito a ver com a pedra São Thomé, o quartzito, que é disposta em camadas, não é extraída como o granito. “Ela já é da espessura que ela é na natureza. É extraída em placas. Segundo uma teoria muito difundida por aqui, esta formação de placas faz da nossa serra como se fosse uma bateria. Ela emanaria uma energia. E como ela é vendida para o mundo todo, as pessoas acabam vindo para cá para conhecer a fonte desta energia.”

O NOME DA CIDADE

O nome da cidade deve-se a uma lenda sobre o suposto encontro no final do século XVIII de uma estátua de São Thomé em uma gruta por João Antão, um escravo fugido de João Francisco Junqueira, juntamente com uma carta, com uma escrita impecável o que seria impossível a um escravo na época. O "das Letras" do nome da cidade tem referência a inscrições rupestres que ainda podem ser vistas na gruta onde teria sido encontrada a estátua ao lado da igreja de São Thomé. O secretário de Cultura e Patrimônio, Edson Pereira de Oliveira, o Edinho, reforça a origem do nome: “A Serra é chamada de Serra das Letras por causa das pinturas rupestres que estão espalhadas pela região. Quando se faz a visitação à igreja, ao lado tem a caverna onde foi encontrada a imagem de São Tomé e ali temos as letras. Hoje nós temos um projeto chamado de Itacoatiara, que visa a encontrar e catalogar todas as pinturas rupestres da Serra das Letras para preservar os locais e torná-los mais um motivador de visitação turística”.

A cidade é cheia de personagem místicos. Um deles é o Chico Taquara, que era um eremita, morava em cavernas. “Aqui nós temos sete cavernas, que são chamadas de tocas do Chico Taquara. Ele era gigante, passava cera de abelha na cabeça e usava argolas no pescoço. Ele tinha um contato muito próximo com os animais. Tinha um rebanho de bois que andava com ele, assim como cachorrinhos. Ele não prendia os animais. Era afetividade espontânea. Ele era parteiro, curandeiro. Ninguém sabe para onde ele foi. Ele desapareceu. Não existe sepultura do Chico. Ele é do começo do século XX.

O chefe do Departamento de Turismo de São Thomé, João Gabriel Guimarães, foi o guia em visitas nos locais mais ligados à natureza, como é o caso das Grutas do Labirinto e de Sobradinho e da Cachoeira Véu de Noiva. O distrito de Sobradinho fica na divisa entre a Mata Atlântica e o Cerrado. Ele destaca que em Sobradinho a mata é mais rasteira, mais ligada ao Cerrado, como a Canela de Ema, que tem até 1 metro de altura e que podem chegar a 2 metros e meio. A Ema Thomeensis é roxa e é exclusiva da região. No caminho para a região está o Vale das Borboletas.

CACHOEIRA DA LUA

Sobre a Cachoeira da Lua, João Guimarães explica que havia algumas explicações místicas sobre homenzinhos iluminados que tomavam banho por lá, que era atribuído a ETs, mas que deveriam ser macacos, micos, sagüis. O Morro do Taquaral divide a Mata Atlântica e o Cerrado. “A pedra São Thomé foi formada no fundo do oceano, é provada cientificamente. A única coisa que faz a pressão para ficar uma linha reta é a pressão do oceano. São Thomé seria considerada a cidade do Autoconhecimento, conforme os intraterrenos”, destaca. “O Chico Taquara teria 2 metros de altura, foi nascido de uma mulher branca com um escravo. Ele foi criado por pessoas com vestes brancas, que o levaram para fora da cidade, para o que seria o mundo intraterreno. Quando adolescente, ele foi para o centro da cidade, já com barba e dreads com mel, os pássaros, abelhas e animais ficavam em volta. Ele dizia que morava em todo o lugar. Morava em tocas, grutas. A Pedra da Bruxa ele usava para se energizar e realizava todos os partos e curas na região”, conta João Guimarães.

Sobradinho virou distrito de São Thomé em 2015. Parece uma cidade cinematográfica.

“O turismo tem as grutas, o Pico do Gavião (ponto mais alto do município, 1;550 m de altitude), que é uma base da Escola de Sargentos do Exército, o Cânion Eldorado, o Poço Verde, a Gruta do Labirinto, onde tem um Jardim Suspenso, o jardim da vida, que tem uma claraboia gigante, é um exemplo de sobrevivência da natureza, as árvores vão se curvando dentro da gruta para buscar o sol. É um exemplo de que não é qualquer tombo na nossa vida que vai nos derrubar. A sócia da Gruta do Labirinto, Eliane Deak, destaca que há uma série de estudos na Gruta, como a temperatura em todas as estações, trabalho de fauna, de espeleologia, botânico. O responsável pelo meu manejo é Allan Kalux, é da USP. Meu poço ainda não está pronto, oriundo de mireração. A gente chegou aqui e era um local de mineração, de exploração da pedra São Tomé. A pedra aqui é mais mole, foi menos ferida. Não atrai tanto a extração. A gente conseguiu ter poços. São três poços. Um deles é o Poço Verde, com 18 metros de profundidade, que foi aterrado e pretendo abrir de forma turística, no verão de 2026, por isso não é aberto ainda, é uma cava, oferecia risco para quem bebe, de se atirar por exemplo. Quero abrir com toda a segurança possível. A tiragem da pedra você vai fazendo por camadas, vai fazendo um buraco, neste caso é água de chuva, deixamos aberto para ver se aflorava, não é lençol freático. Foi isso que fez eles desistirem.

O proprietário da Gruta Sobradinho, José Geraldo Flauzino, destaca que fez um estudo para ver qual a capacidade de visitação do local. “Neste meio tempo, contratamos uma equipe para fazer todo este estudo, demorou quase dois anos, pois tem que colocar um equipamento dentro da gruta, nas quatros estações do ano, para ver a alteração que tem a Gruta com um grupo de 10 pessoas, por exemplo, que é a capacidade de visitação por grupo e duração de 40 minutos com uns 130 metros e sai na Cachoeira. Foi assim que apresentamos o Plano de Manejo para visitação em acordo com o Ministério Público”. Os números de visitantes chegam a 5 mil pessoas por mês. O começo foi em 2015. Já são 10 anos operando. Os valores chegam a 1.000 reais o casal a diária com café da manhã, almoço, jantar, passeio na Gruta, passeio no Labirinto.

CACHOEIRA VÉU DE NOIVA

A Cachoeira Véu de Noiva é uma das mais belas que visitamos. A água é gelada, como todas na região, mas as belezas da sua formação rochosa em volta da queda das águas e o caminho com várias telas trançadas, os teares sensoriais para o descanso fazem deste local, um ponto mágico da visita a São Thomé. O proprietário da Véu de Noiva é o paulista Rodrigo Catelli Abrão. “A gente oferece lojas, restaurantes, espaços de lazer que são os teares sensoriais, o slack line que atravessa uma ponta a outra, a vila Hobbit, o balanço para despertar emoções e sentimentos antigos. No topo da montanha, nós temos o Observatório, onde tenho uma torre de madeira bem em cima das árvores, para vigília noturna de estrelas e do céu. Estamos na Mata Atlântica em transição com o Cerrado. Aqui embaixo eu tenho o rio do Peixe, que vai para o sul do país. O rio da cachoeira é o rio Pinhal, mas o rio de São Thomé que é minha nascente de água. Estamos numa ilhota, um pedaço de terra cercado por águas na montanha”. O local tem fauna e flora diversificado. O funcionamento é todos os dias das 7h às 17h, inclusive domingos e feriados. Ainda não trabalha com hospedagem. As festas temáticas acontecem até as 20h. “Depois disto, desliga mesmo, porque tem as plantinhas e as galinhas para dormir. A parada é mais consciente, mais sintonizada com a natureza”. O custo é de 40 reais por pessoa. Criança até 10 anos não paga. Meia-entrada para idosos e estudantes. O local também funciona como casa de shows. Este ano haverá uma Festa de Réveillon, que irá celebrar a Paz Mundial. “Todos estarão de roupa branca, vai ter yoga, massagem, entretenimento durante o dia, sem fogos de artifício. Ele faz um trabalho filantrópico, com 40 pessoas da APAE, 100 idosos do Asilo, patrocina atletas da cidade, faz ações ambientais com plantios de mudas por escolares.

Catelli conta que conheceu São Thomé em 1996, quando veio de São Paulo com um grupo de idosas todas de branco. Conheci a cidade, frequentei até 1999. Retornei em 2016, com o trabalho de engenharia bem-sucedida. Aí tive uber, hostel, agência de gás, mas sempre quis fazer a parte social para a cidade, a energia que temos aqui na cidade é única. Eu tenho alguns vídeos de luzes já gravadas, se é OVNI ou não, não posso dizer. “Desde que vim para cá, a cidade me chamou de volta, claro que foi pelo lado místico. O turismo deu um salto, melhorou a qualidade e a infra-estrutura, a parte magnética da cidade me atraiu para largar o conforto da cidade e vim morar no meio do mato e desenvolver este projeto. A cidade chega a receber mais de 50 excursões por final de semana.

O histórico caminho da Estrada Real passava pela porção sudeste do território do município de São Thomé das Letras, não cruzando a área urbana, no caminho entre as cidades vizinhas de Baependi e Cruzília.

A viagem à Serra da Mantiqueira foi a convite do Governo de Minas Gerais.