Luiz Gonzaga Lopes

Luis Fernando Verissimo fez minha vida mais bem-humorada

Desde os anos 1970, o escritor e cronista, morto neste 30 de agosto, esteve presente na minha trajetória, seja pelas crônicas ou pelos dedos de prosa em eventos literários

Luis Fernando Verissimo na redação da Folha da Manhã em 11 de fevereiro de 1971
Luis Fernando Verissimo na redação da Folha da Manhã em 11 de fevereiro de 1971 Foto : CP Memória

Escrevo esta pequena crônica ou ensaio, como queiram, logo após voltar do velório do Luis Fernando Verissimo, no Salão Júlio de Castilhos da Assembleia Legislativa, que foi encerrado neste sábado, 30 de agosto, às 17h, com aplausos emocionados e muitos vivas ao jornalista, cronista e escritor, um 3 em 1 muito melhor do que aqueles CCEs que ouvi as principais canções da minha infância e adolescência, de Chico Buarque ao metal do Iron Maiden. Resolvi escrever estas linhas talhadas com lágrimas internas para falar do autor que me ensinou viver com mais alegria, a ler o humor com ironia, sarcasmo e deboche e a não levar tão sério os textos cômicos, a ser mais Polianna (referência ao jogo do contente da personagem do livro de Eleanor H. Porter).

Muito mais do que o pai, Erico, Luis Fernando sempre esteve presente na minha vida desde a infância nos anos 1970. O primeiro livro que comprei dele foi o “O Rei do Rock”, uma coletânea de crônicas lançado numa coleção da Editora Globo com a RBS. Foi lançado em 1978. A crônica que me marcou deste livro foi “Futebol de Rua” e falava da Pelada, o jogo de futebol onde tudo é possível e que era a realidade dos fominhas de bola de plantão entre os quais eu me inseria. Com 4 anos de idade, eu jogava futebol com bolas de tênis ou de frescobol, com 5 e 6, eu chutava pedras e bolinhas de gude como se fossem bolas de futebol. Esta crônica do LFV me pegou em cheio, pois falava exatamente disto, da falta de regras para a Pelada. Este trecho mostra muito o porquê da minha identificação imediata:

“DA BOLA – A bola pode ser qualquer coisa remotamente esférica. Até uma bola de futebol serve. No desespero, usa-se qualquer coisa que role, como uma pedra, uma lata vazia ou a merendeira do seu irmão menor, que sairá correndo para se queixar em casa. No caso de se usar uma pedra, lata ou outro objeto contundente, recomenda-se jogar de sapatos. De preferência os novos, do colégio. Quem jogar descalço deve cuidar para chutar sempre com aquela unha do dedão que estava precisando ser aparada mesmo. Também é permitido o uso de frutas ou legumes em vez da bola, recomendando-se nestes casos a laranja, a maça, o chuchu e a pera. Desaconselha-se o uso de tomates, melancias e, claro, ovos. O abacaxi pode ser utilizado, mas aí ninguém quer ficar no gol.”

E os anos foram se passando. Quando chegamos aos anos 1980, eu adolescente e já envolvido com grupos de teatro, acabei assistindo a uma esquete da crônica “Emergência” no qual Verissimo brincava com a questão da pessoa que entra pela primeira vez em um avião e os comissários de bordo começam a dar instruções do que fazer em caso de queda da aeronave. “Máscaras de oxigênio cairão automaticamente sobre nossas cabeças”. Na época, eu fazia parte de um grupo de teatro que ainda existe, em São Leopoldo, o Corpos e Sombras, e em janeiro de 1988 fiz minha primeira viagem de avião para Salvador, depois Recife e Fortaleza, pela Varig/Cruzeiro e também pela Transbrasil na volta para Porto Alegre. Viajei com os meus pais, Roque e Deotília, e quando a comissária de bordo da companhia aérea começou a dar as instruções, eu comecei a me apavorar como o Verissimo detalhava na crônica. Veja este trecho:

"Quando o avião começa a correr pela pista antes de levantar voo, ele é aquele com os olhos arregalados e a expressão de Santa Mãe do Céu! no rosto. Com o avião no ar, dá uma espiada pela janela e se arrepende. É a última espiada que dará pela janela.

Mas o pior está por vir. De repente ele ouve uma misteriosa voz descarnada. Olha para todos os lados para descobrir de onde sai a voz.

"Senhores passageiros, sua atenção, por favor. A seguir, nosso pessoal de bordo fará uma demonstração de rotina do sistema de segurança deste aparelho. Há saídas de emergência na frente, nos dois lados e atrás."

__ Emergência? Que emergência? Quando eu comprei a passagem ninguém falou nada em emergência. Olha, o meu é sem emergência.

Uma das aeromoças, de pé ao seu lado, tenta acalmá-lo.

__ Isto é apenas rotina, cavalheiro.

__ Odeio a rotina. Aposto que você diz isso para todos. Ai meu santo.

"No caso de despressurização da cabina, máscaras de oxigênio cairão automaticamente de seus compartimentos."

__ Que história é essa? Que despressurização? Que cabina?

"Puxe a máscara em sua direção. Isto acionará o suprimento de oxigênio. Coloque a máscara sobre o rosto e respire normalmente."

__ Respirar normalmente? A cabina despressurizada, máscaras de oxigênio caindo sobre nossas cabeças __ e ele quer que a gente respire normalmente?

"Em caso de pouso forçado na água ..."

__ O quê?!

"... os assentos de suas cadeiras são flutuantes e podem ser levados para fora do aparelho e ..."

__ Essa não! Bancos flutuantes, não! Tudo, menos bancos flutuantes!

__ Calma, cavalheiro.

__ Eu desisto! Parem este troço que eu vou descer. Onde é a cordinha? Parem!

__ Cavalheiro, por favor. Fique calmo.”

Fiz algumas coisas parecidas ao que eu lembrava da crônica. A comissária de bordo pensou que eu estava realmente apavorado e tentou me acalmar. Vendo que ela estava preocupada comigo e que já queria trazer alguns sais ou maracugina para que eu ficasse mais calmo, eu acabei dizendo que estava recriando uma crônica do Luis Fernando Verissimo. Ela deu um suspiro de alívio e chegou a ensaiar ficar zangada comigo, mas a minha pirraça tinhas bases sólidas na escrita de Verissimo. Contra este humor irônico, ninguém pode fazer nada.

Continuei lendo LFV com afinco, mas nos anos 1990 quando eu já estava a mil na minha primeira década de jornalismo, começaram a vir com tudo as publicações de “As Comédias da Vida Privada” pela L&PM. A primeira edição foi em 1994 e já em abril de 1995 o Guel Arraes e o Jorge Furtado resolveram levar para uma série no canal 12 e foi um estrondoso sucesso com atores do quilate de Fernanda Torres, Débora Bloch (atual Odete Roitmann), Pedro Cardoso, Luiz Fernando Guimarães, Daniel Dantas, Giulia Gam, Marieta Severo, Cláudia Abreu, Marco Nanini, Andréa Beltrão, Tony Ramos, Diogo Vilela. E aí comecei a voltar a escrever textos de humor junto com amigos do jornal no qual eu trabalhava na época, do Grupo Editorial Sinos. É claro que eu não publicava os textos, mas eu lia “As Comédias da Vida Privada”, via a série quando passava na TV, gravava no videocassete e queria por que queria entrevistar o Verissimo. Dá para acreditar que eu não consegui, mas acho que foi para manter aquela distância segura do ídolo.

Nos anos 2000, tive algumas oportunidades de ter algumas conversas rápidas com o Luis Fernando Verissimo. Não mais do quatro ou cinco conversas. Me lembro de três delas. A primeira foi durante o lançamento do livro “Pequenos Amores”, do José Roberto Torero, em 2003, na Feira do Livro de Porto Alegre. LFV estava na fila dos autógrafos à minha frente e eu peguei a caneta e o bloco e perguntei se Torero não ia pegar o cetro de melhor cronista homem de humor do país, depois que Verissimo partisse. Luis Fernando exaltou as qualidades de Torero e disse que não aceitava este posto de melhor cronista de humor do país. A segunda vez foi quando ele e Lucia estavam no Aeroporto Charles de Gaulle em Paris, no balcão da TAP, para um voo de Paris a Lisboa. Eu e minha namorada à época estávamos atrás deles na fila. Tínhamos ido a Paris pela primeira vez. Claro que puxamos um papo sobre Paris e Lisboa. Lucia falou bastante com a gente, contando um pouco sobre a atual viagem e Luis Fernando só comentou “en pasant” que estar em Paris pela primeira vez é parecido com a Disney para as crianças.

A terceira vez foi em 2015, quando republiquei no Caderno de Sábado um texto de Erico Verissimo escrito dois meses antes de sua morte, em 1º de outubro de 1975, chamado “O Correio do Povo e Eu”. Erico falava de sua gratidão ao Correio do Povo por ter publicado um dos seus primeiros contos em 1930 e agradecia ao jornal pelo impulso que faltava para optar pela carreira literária. Veja trecho:

“Foi lá por 1929 que escrevi o meu primeiro conto, "Ladrão de Gado", que Mansueto Bernardi fez publicar na sua Revista do Globo. O meu ideal, porém, era ter algum escrito meu reproduzido no suplemento literário que o Correio do Povo publicava semanalmente, e no qual colaboravam os melhores escritores da geração de Augusto Meyer, Reynaldo Moura, Theo Tostes, De Souza Júnior e vários outros. Um dia, numa atitude por assim dizer "suicida" meti num envelope os originais dum conto de minha autoria e enviei-o a De Souza Júnior, que era um dos organizadores do suplemento. Fiquei então à espera do "milagre". Nos dois números seguintes do suplemento não vi meu trabalho publicado. Pensei assim: "Dever ter jogado o conto na cesta de papéis. Mas que diabo! Quem sou para querer aparecer numa página em que colaboram escritores como Augusto Meyer?" E ao pensar isso uma espécie de cábula perante mim mesmo se apoderava de mim, perturbando-me. No entanto, o meu "A Lâmpada Mágica" apareceu um dia, ocupando uma página inteira do encantado suplemento. Li o conto e não gostei. Mas não nego que fiquei feliz ao ver meu nome no alto duma página impressa. Continuei a mandar meus escritos para o suplemento, que continuou a publicá-los, quase sempre com ilustrações do Benjamin Soares Cabello,o Cabellito, com quem eu viria a fazer no futuro muito boas relações de amizade, e que se haveria de tornar um economista competente. Um dia uma ideia que então parecia doida aos poucos a quem eu a confiava, tomou conta de mim. Não sentindo nenhuma inclinação, nenhuma habilidade para o comércio, eu decidira seguir uma carreira literária, nem que tivesse de comer sopa de pedra. Tendo fracassado numa empresa comercial, mudei-me de minha cidade natal para Porto Alegre em fins de 1930, dois meses após a vitória da Revolução de 30.”

Republiquei o texto do Erico Verissimo em um sábado e na segunda-feira houve uma sessão de autógrafos na Livraria Cultura e o Luis Fernando Verissimo estava lá. Em algum momento, estávamos olhando livros em uma mesma estante e eu puxei um papo, me apresentando que era o Luiz Gonzaga Lopes, jornalista e editor do Caderno de Sábado do Correio do Povo, e que havia republicado o texto “O Correio do Povo e Eu”, do pai dele no sábado anterior no CS. Luis Fernando desarmou a sua timidez e falou comigo que aquele texto era muito caro ao Erico. Foi escrito durante semanas naquele 1975 e publicado um pouco menos de dois meses da morte do pai, um ataque do coração (como se dizia à época) em 28 de novembro de 1975. LFV que o texto demorou a ser feito, porque Erico era sempre grato ao Correio do Povo pelo impulso que faltava em sua carreira literária.

E cortamos para este ano de 2025, quando Luis Fernando Verissimo foi internado no Hospital Moinhos de Vento, no dia 16 de agosto, com um quadro de pneumonia, permanecendo em estado grave por duas semanas até a sua morte neste dia 30 de agosto, por volta da 0h40min. Desde então, passei a reler alguns textos de Verissimo e a frequentar o Arquivo de Jornais do Correio do Povo. Com o auxílio do meu colega Juliano Bruni, fui esquadrinhando as crônicas de Verissimo na Folha de Manhã entre 1º de maio de 1970 a 24 de outubro de 1975. Achei algumas pérolas sobre as quais falarei mais adiante (veja exemplos na galeria de fotos abaixo). Uma delas, chama-se “Inútil”, é de 21 de agosto de 1970, na página 4 da FM. Nesta crônica, Verissimo fala de uma troca de ideias sobre a dieta que ambos faziam com o jornalista e crítico de cinema, Hiron Goidanich, o Goida. A crônica exacerba o lado solidário daqueles que tentam resistir às tentações, ligando de madrugada um para o outro para dizer que está diante de um quindim da Doçaria Marta e que estava perto de ceder. Ao que o outro diz que estará em minutos no local para impedir este pecado. Uma de suas tantas crônicas inesquecíveis.

Neste dia, em que perdemos a presença física de Luis Fernando Verissimo, mas mantemos a presença etérea e eterna por seus textos, principalmente as crônicas de humor, só posso dizer que LFV me ensinou a ser mais alegre, a ser mais Polianna, a fazer o jogo do contente ou a tratar com ironia e forma proativa as pequenas tragédias cotidianas. Vida longa à escrita de Luis Fernando Verissimo!!!