Quando as luzes se apagam no Palácio dos Festivais e o último Kikito é entregue, algo permanece suspenso no ar. Algo que vai além dos flashes, das taças brindadas e das poses no tapete vermelho. O Festival de Cinema de Gramado chega ao fim, mas deixa um rastro denso, pulsante, quase invisível, como a fumaça que insiste em pairar depois de um incêndio criativo.
O que fica depois de um evento como esse não cabe numa manchete. Fica a memória inquieta das imagens projetadas, dos silêncios carregados de significados, dos diálogos sussurrados entre realizadores e espectadores nas esquinas frias da serra. Ficam os filmes que ainda reverberam nas retinas, alguns que arrebatam, outros que incomodam, e aqueles raros que conseguem fazer as duas coisas ao mesmo tempo.
Fica o resíduo dos encontros improváveis: diretores de primeira viagem trocando cartões com veteranos calejados; produtores calculando orçamentos entre goles de vinho e teorias de cinema argentino; jornalistas caçando manchetes entre cafés apressados e debates acalorados. Fica a dança silenciosa das negociações, contratos esboçados em encontros, futuros promissores desenhados com olhares.
E, acima de tudo, fica a sensação de que o cinema brasileiro ainda respira, resiste e se reinventa. Entre o verniz glamouroso da cerimônia de premiação e os bastidores fervilhantes das exibições, emerge um retrato multifacetado do nosso cinema contemporâneo. Reverberante suas inquietações, suas urgências, sua ousadia estética e política. Gramado é espelho, mas também é farol. Reflete o que fomos, revela o que somos e projeta o que poderemos ser.
Quando a cidade volta ao seu ritmo do turismo sempre pulsante e as cortinas do cinema se fecham, é aí que o verdadeiro festival começa. Dentro de quem viu, viveu, criou. Porque o que fica, no fim, é a faísca. E com sorte, ela incendeia.
