Marcos Santuario

Adeus ao mestre do desconforto

Quatro dias antes de completar 79 anos, David Linch se despede da vida, deixando legado potente
Quatro dias antes de completar 79 anos, David Linch se despede da vida, deixando legado potente Foto : TIZIANA FABI / AFP / CP

David Lynch foi o tipo de cineasta que nunca se conformou com as regras, e quem se atreve a assistir seus filmes acaba se vendo em um labirinto de imagens surrealistas, sombrias e, ao mesmo tempo, hipnotizantes. Foi uma figura que desafiou os limites da narrativa e do cinema, criando um esti

Sua morte na última quinta-feira, dia 16 de janeiro, quatro dias antes do aniversário de 79 anos, deixa marcas. Quem se deparou com “Eraserhead” (1977) sabe que este não é um filme convencional. Em sua estreia como diretor, Lynch levou os espectadores a um mundo desconcertante, onde a realidade parece se desintegrar. A inquietante atmosfera do filme rapidamente o colocou na vanguarda do cinema experimental.

Mas foi em “O Homem Elefante” (1980) que Lynch conquistou a crítica, com a tocante história de John Merrick, um homem com deformidades físicas, que contrasta com a miséria da sociedade que o rejeita.

Aparentemente, Lynch foi um mestre em explorar o incomum e o obscuro, e nada resume melhor isso do que “Cidade dos Sonhos” (2001). Um filme que, assim como um pesadelo, desafia qualquer tentativa de explicação lógica, e onde a linha entre o real e o imaginário se dissolve diante dos olhos do espectador.

mesma imprevisibilidade marcou a série “Twin Peaks”, com a qual vibrei lá pelos anos 1990, e que teve tentativa de continuação em 2017. Mas, dentro daqueles momentos marcantes, que a gente leva pra vida, um encontro que tive com o grande diretor em um coquetel em Porto Alegre, fica na minha história. Falamos sobre cinema, mundo e sobre o Festival de Cinema de Gramado, do qual lhe falei, e ele ouviu com entusiasmo. Foi uma chance rara de ouvir muito e falar algo com o mestre do surrealismo em carne e osso.

David Lynch é, sem dúvida, um mestre do desconforto, da beleza perturbadora e da quebra de convenções, um cineasta que, com sua obra, continua a desafiar o público a olhar o mundo com um olhar diferente, mais atento e, ao mesmo tempo, mais livre.