É uma mescla de forma e conteúdo que estão dando certo. A trajetória do longa “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, nos cinemas, desperta, no mínimo curiosidade social e cultural. Ao ultrapassar o um milhão de espetadores em poucas semanas no país, o filme se revela um novo fenômeno do cinema nacional. Seja pela junção de qualidade cinematográfica, em técnica e conteúdo. Seja pelo marketing profissional, aliado ao potente e universal “boca a boca”. Verdade é que a obra, escolhida para tentar vaga entre os finalistas na corrida ao Oscar de Melhor Filme Internacional, está movimentando salas de exibição como há tempos não se via. Há muitos relatos de lágrimas de espectadores, que correm, até o momento dos créditos finais. Os elogios à forma de tratar temática tão difícil como o desaparecimento de vítima de regime ditatorial e violento também abundam. Isso, por si só, não vai garantir a estatueta hollywoodiana para a obra ou para a elogiadíssima atuação de Fernanda Torrres. Mas, pelo menos, ajuda a colocar o cinema brasileiro, novamente, em patamares elevados de qualidade narrativa e estética. Vivemos momentos parecidos àqueles em que, recentemente, produções do diretor Kleber Mendonça Filho, encantaram o mundo do cinema com premiações no Festival de Cannes e posterior carreira de sucesso nacional e internacional. Temáticas humanas, envolvidas na crítica social de “Aquarius”, ou na ficção provocativa de “Bacurau”. A ousadia “klebermachadiana” ganhou mais intensidade com a homenagem reflexiva e potente do documentário “Relatos Fantasmas”. Muito além das comédias fáceis e despretensiosas, o cinema brasileiro mostra faceta ainda mais realista e necessária. Mostra de que “ainda estamos aqui”.
Ainda estamos aqui
