Marcos Santuario

Cannes que se prepare

'O Agente Secreto', novo filme de Kleber Mendonça Filho estrelado por Wagner Moura, terá estreia mundial na Competição Oficial do Festival de Cannes 2025
'O Agente Secreto', novo filme de Kleber Mendonça Filho estrelado por Wagner Moura, terá estreia mundial na Competição Oficial do Festival de Cannes 2025 Foto : Victor Jucá / Divulgação / CP

Em 2025, o cinema brasileiro não bate à porta de Cannes – ele escancara. A seleção de “Agente Secreto”, novo filme do pernambucano Kleber Mendonça Filho, para a competição oficial do Festival de Cannes é mais do que uma conquista individual: é um gesto político, artístico e histórico. É o Brasil sendo ouvido – com sotaque, suor e câmera na mão.

Kleber, que já não é mais promessa, mas lenda em construção, retorna ao tapete vermelho da Croisette com o peso e a leveza de quem sabe o caminho. Afinal, “Aquarius” provocou debates acalorados em 2016 e cravou seu lugar entre os grandes filmes do século. “Bacurau”, em 2019, não apenas levou o Prêmio do Júri – partilhado com Les Misérables – como também virou símbolo de resistência global em tempos de obscurantismo. Agora, com *Agente Secreto*, Mendonça parece disposto a ir além da crítica social ou do comentário político: ele quer espiar a alma da América Latina com lentes de thriller e sombras de noir.

A escolha do filme para a competição principal em Cannes é um sinal de que o cinema brasileiro está não apenas vivo, mas pulsando em sintonia com o mundo. Num momento em que o Brasil e a França estreitam laços diplomáticos e culturais, a presença de Kleber no festival francês ganha camadas simbólicas. 2025 marca uma efervescência rara: no fim de abril, o Festival de Paris prestará homenagem ao Festival de Gramado, celebrando a ponte estética e afetiva entre os dois países. É como se o cinema, essa arte de construir mundos, estivesse também construindo pontes reais.

Se em anos anteriores Cannes foi palco para protestos silenciosos e discursos inflamados, este ano promete ser palco de celebração. Mas uma celebração crítica, provocadora – como o próprio Kleber. “Agente Secreto” chega como enigma e promessa. E, quem sabe, como vitória. Para o Brasil, para o cinema e para quem ainda acredita que a arte pode ser arma, espelho e farol.