Em 2025, o cinema brasileiro não bate à porta de Cannes – ele escancara. A seleção de “Agente Secreto”, novo filme do pernambucano Kleber Mendonça Filho, para a competição oficial do Festival de Cannes é mais do que uma conquista individual: é um gesto político, artístico e histórico. É o Brasil sendo ouvido – com sotaque, suor e câmera na mão.
Kleber, que já não é mais promessa, mas lenda em construção, retorna ao tapete vermelho da Croisette com o peso e a leveza de quem sabe o caminho. Afinal, “Aquarius” provocou debates acalorados em 2016 e cravou seu lugar entre os grandes filmes do século. “Bacurau”, em 2019, não apenas levou o Prêmio do Júri – partilhado com Les Misérables – como também virou símbolo de resistência global em tempos de obscurantismo. Agora, com *Agente Secreto*, Mendonça parece disposto a ir além da crítica social ou do comentário político: ele quer espiar a alma da América Latina com lentes de thriller e sombras de noir.
A escolha do filme para a competição principal em Cannes é um sinal de que o cinema brasileiro está não apenas vivo, mas pulsando em sintonia com o mundo. Num momento em que o Brasil e a França estreitam laços diplomáticos e culturais, a presença de Kleber no festival francês ganha camadas simbólicas. 2025 marca uma efervescência rara: no fim de abril, o Festival de Paris prestará homenagem ao Festival de Gramado, celebrando a ponte estética e afetiva entre os dois países. É como se o cinema, essa arte de construir mundos, estivesse também construindo pontes reais.
Se em anos anteriores Cannes foi palco para protestos silenciosos e discursos inflamados, este ano promete ser palco de celebração. Mas uma celebração crítica, provocadora – como o próprio Kleber. “Agente Secreto” chega como enigma e promessa. E, quem sabe, como vitória. Para o Brasil, para o cinema e para quem ainda acredita que a arte pode ser arma, espelho e farol.
