Nestes últimos dias caminhei pelas ruas de Madri, Sevilha e Paris — não como turista distraído com mapas ou encantado com vitrines, mas como quem leva na mala um certo Brasil barulhento, criativo, às vezes contraditório, mas sempre pulsante. E, em cada esquina dessas cidades, percebi uma coisa: há um vazio que nos espera. Um espaço que clama por ser ocupado pela cultura brasileira — com urgência, mas também com inteligência e sensibilidade.
Em Madri, os Prêmios Platino mostraram o quanto a Ibero-América tem sede de narrativas autênticas. Entre celebridades e discursos, senti que o Brasil ainda poderia — e deveria — estar mais presente, mais visível, mais ouvido. Em Sevilha, entre jovens acadêmicos curiosos e sedentos de trocas reais, e colegas professores com sede de diálogo, vi o quanto o pensamento e a produção intelectual brasileira ainda são novidade para muitos. E novidade boa, daquelas que surpreendem, provocam, fazem pensar. Já em Paris, foi um mergulho sem snorkel: o 27º Festival du Cinéma Brésilien me lembrou que nosso cinema é um rio caudaloso, cheio de pedras, curvas e brilho. Assisti a filmes, conversei com colegas da crítica e do jornalismo cultural, e entendi que, para muitos franceses, o Brasil ainda é uma coleção de estereótipos esperando ser desmontada — e o cinema é o nosso melhor alicate.
Na Sorbonne, participei de um evento sobre cultura e políticas culturais brasileiras. Mais uma vez, me vi cercado de estudantes, professores e pesquisadores curiosos. Gente interessada em saber como funciona essa máquina confusa e encantadora chamada Brasil. E o que vi ali me tocou: há escuta. Há espaço. Só falta mais ocupação — e não aquela ocupação invasiva e ruidosa, mas uma que chegue com afeto, com pensamento, com arte de verdade. Sim, em todos esses lugares — auditórios, calçadas, cafés e salas de cinema — senti que o Brasil cabe. Não como exótico de vitrine, mas como protagonista. Cabe nosso samba, nosso teatro, nossa pesquisa, nosso cinema, nossas perguntas sem respostas e nossa beleza cheia de falhas. O mundo está abrindo espaço. A pergunta que fica é: vamos entrar com tudo — ou vamos deixar passar mais uma oportunidade de mostrar quem somos além do clichê?
