Enquanto o Brasil acompanha ainda uma produção de cinema não finalizada mas já polêmica em seu financiamento, Cannes recbeu o país não apenas para desfilar filmes, talentos e discursos otimistas. Chegou para disputar poder já que, durante décadas, o audiovisual brasileiro foi tratado internacionalmente como território exótico.
Visto como criativo, vibrante e politicamente intenso mas, economicamente instável. A presença de entidades brasileiras no Marché du Film, sinaliza que há tentativa de romper esse ciclo e transformar o país em engrenagem estratégica da indústria audiovisual global. Com financiamentos transparentes e com origens claras. O lançamento do Plano de Diretrizes e Metas do Audiovisual 2026–2035 é uma declaração de ambição.
O Brasil quer deixar de ser apenas fornecedor periférico de histórias “premiáveis” para se consolidar como ambiente permanente de negócios, coprodução e circulação internacional. Em outras palavras, o país tenta finalmente profissionalizar sua própria potência cultural.
Mas existe provocação inevitável de saber se o mundo está disposto a investir no Brasil como indústria e não apenas como narrativa exótica. Porque há diferença entre celebrar filmes brasileiros em festivais e construir relações econômicas duradouras com o setor audiovisual nacional.
Os números apresentados impressionam já que são mais de R$ 70 bilhões movimentados, centenas de milhares de empregos e recordes de investimento público. Ainda assim, o desafio central permanece interno. O audiovisual brasileiro sempre cresceu aos saltos, interrompido por crises políticas, desmontes institucionais e mudanças abruptas de prioridade.
O que Cannes observou nos dias de evento não é apenas criatividade, é capacidade de continuidade. Segurança jurídica, estabilidade regulatória e previsibilidade talvez sejam hoje mais importantes para investidores estrangeiros do que qualquer tapete vermelho.
