Marcos Santuario

De Platinos e mundiais

Crítico Marcos Santuario comenta em sua coluna Santu Atento sobre as pré-indicações de produções brasileiras aos Prêmios Platino

Prêmios Platino 2026 serão entregues no dia 9 de maio, no Teatro Gran Tlachco do Parque Xcaret, na Riviera Maya, no México
Prêmios Platino 2026 serão entregues no dia 9 de maio, no Teatro Gran Tlachco do Parque Xcaret, na Riviera Maya, no México Foto : Youtube / Reprodução / CP

O cinema e a televisão brasileiros chegam a 2026 para deixar marcas profundas. Apontam para a edição dos Prêmios Platino deste ano com a convicção de quem sabe o que está fazendo. As pré-indicações anunciadas nos últimos dias confirmam o potente momento do audiovisual nacional. Com isso passa a ocupar também o centro do diálogo ibero-americano com voz própria, madura e inquieta.

No coração desse movimento estão “O Filho de Mil Homens” e, sobretudo, “O Agente Secreto”. Onze e oito pré-indicações não são estatística inflada; são sintoma. Daniel Rezende e Kleber Mendonça Filho encarnam dois impulsos complementares do cinema brasileiro contemporâneo. Rezende aposta na emoção coletiva, no afeto como força política. Kleber Mendonça radicaliza a linguagem, tensiona a história, investiga o poder e suas sombras. Com “O Agente Secreto”, o Brasil não apenas disputa os Platino. Projeta-se com ambição para além deles, mirando Oscar, Bafta e César francês, sem diluir sua identidade nem suavizar suas arestas. Esse protagonismo não acontece no vácuo. Séries como “Máscaras de Oxigênio Não Cairão Automaticamente” e “Ângela Diniz: Assassinada e Condenada” dominam as categorias de minisséries, enquanto longas como “Manas”, “O Último Azul”, “Homem com H” e “Vitória” revelam um país capaz de transitar entre o íntimo e o épico, o popular e o sofisticado. A presença de Fernanda Montenegro, Wagner Moura, Denise Weinberg, Dira Paes e Jesuíta Barbosa desenha uma constelação de intérpretes que atravessa gerações sem perder densidade nem risco.

Mais provocador ainda é perceber como o Brasil ocupa quase todos os territórios narrativos. Do documentário à animação, da comédia às séries de longa duração, os pré-indicados mostram que imaginar o passado, o presente e o futuro também é um gesto político. Não se trata apenas de entreter, mas de formar repertório, gerar desconforto e ampliar o debate.