Há um cinema em movimento que não pede licença — chega com som, suor e sotaque. Vem das ladeiras quentes de Olinda, das ruas do Recife Antigo, do mangue e do concreto. É o cinema pernambucano, que há tempos deixou de ser promessa para ocupar, sem cerimônia, um espaço nobre no imaginário cultural do país e do mundo. E, talvez o mais bonito: está sendo, enfim, celebrado por onde começou.
No início do mês, dois dos maiores nomes dessa revolução cinematográfica — Gabriel Mascaro e Kleber Mendonça Filho — receberam a Medalha Guararapes, maior honraria concedida pelo Governo de Pernambuco. Foi no Palácio do Campo das Princesas, cenário histórico agora rebatizado pela cultura. Mascaro e Kleber, diretores de "O Último Azul" e "O Agente Secreto", têm em comum não apenas a assinatura da Vitrine Filmes, mas o compromisso estético e político de pensar o Brasil por imagens que incomodam, deslumbrem, provoquem.
Esse reconhecimento não veio à toa — é colheita de um cinema autoral, inventivo e, acima de tudo, fiel às suas raízes. Um cinema que não busca parecer com Hollywood, mas com a vida. Que trata o Recife como Paris, o sertão como sci-fi, a praia como palco de drama íntimo e revolução coletiva. Um cinema que não pede benção, dá aula.
E é nesse mesmo espírito que o CinePE 2025 abriu sua 29ª edição com uma notícia simbólica: o lançamento de um novo edital do Ministério da Cultura voltado ao audiovisual. Num país onde o cinema vive entre cortes e resistências, a notícia soa como respiro — ou melhor, grito. Porque Pernambuco não quer apenas fazer filmes. Quer formar, financiar, distribuir e decidir os rumos de sua própria narrativa.
Porque, se depender desse movimento, o cinema brasileiro ainda vai falar muito com o sotaque de lá. E a gente vai adorar ouvir.
