Marcos Santuario

É outra experiência

‘Betty Blue’ e ‘Suspiria’ retornam aos cinemas como experiências que recusam ser reduzidas a ‘conteúdo’

‘Betty Blue’, 40 anos depois, é delírio emocional de Jean-Jacques Beineix
‘Betty Blue’, 40 anos depois, é delírio emocional de Jean-Jacques Beineix Foto : Pandora Filmes / Divulgação / CP

Há algo quase subversivo em ver dois filmes como “Betty Blue” e “Suspiria” retornarem ao cinema, no dia 23 deste mês, em pleno 2026. Não é apenas um relançamento. É um choque de sensibilidade. Em uma era domesticada por algoritmos, esses filmes reaparecem como experiências que recusam ser reduzidas a “conteúdo”.

De um lado, o delírio emocional de Jean-Jacques Beineix. “Betty Blue” não é um romance, mas sim uma combustão. A relação entre Zorg e Betty implode qualquer ideia confortável de amor, expondo desejo, obsessão e fragilidade sem filtros. E é justamente essa intensidade, crua, erótica e instável, que faz o filme ainda soar perigoso hoje. Revê-lo no cinema é reencontrar uma obra que não tem medo de exagerar e ultrapassar limites emocionais.

Do outro lado, o pesadelo sensorial de Dario Argento. “Suspiria” não conta uma história da forma tradicional, dissolve em cor, som e violência estilizada. A jornada de Suzy, vivida por Jessica Harper, é menos narrativa e mais hipnose. Luzes irreais, trilha pulsante, corpos em risco constante. É cinema como experiência física. Assistir fora da sala escura é perder metade do impacto.

O que une esses dois retornos não é apenas o status de cult, mas a recusa em envelhecer de forma dócil. Ambos continuam extremos. Um na paixão, outro no horror. E talvez seja isso que mais falte hoje, filmes que não se ajustam à lógica da distração rápida. Essas reestreias também expõem uma verdade incômoda. O cinema só se completa no cinema.

A restauração em 4K de “Suspiria” e a recuperação vibrante de “Betty Blue” não são caprichos técnicos, mas sim tentativas de devolver ao público aquilo que foi diluído pelas telas menores. Até mesmo o gesto quase anacrônico de lançar “Suspiria” em VHS reforça isso. Não importa o formato, mas a intensidade da experiência.