Há algo de irônico e, talvez, revelador na paisagem que Cannes 2026 desenha. Enquanto a Croisette se prepara para mais um desfile de consagrações, ausências e disputas simbólicas, é a Espanha que avança com força. Vai ocupando o espaço que, até pouco tempo, parecia aberto para uma presença latino-americana mais robusta. No centro desse movimento está “Amarga Navidad”, de Pedro Almodóvar, um cineasta que não apenas retorna, mas reafirma o peso de uma cinematografia que sabe transformar identidade em linguagem universal.
A presença espanhola não é casual, e sim estratégica, contínua, quase inevitável. Almodóvar não chega apenas com um filme. Chega com uma tradição de risco estético, de melodrama reinventado, de narrativas que atravessam o íntimo e o político com a mesma intensidade. O Festival de Cinema de Cannes, historicamente seduzido por autores que constroem mundos próprios, encontra nele um aliado perfeito. E talvez por isso a seleção pareça menos diversa do que poderia. Quando algumas vozes falam tão alto, outras silenciam.
É nesse ponto que a ausência latino-americana na competição principal se torna mais do que um dado e vira sintoma. Há vários anos, o Brasil ocupava o espaço com vigor, com cinema que dialogava com o mundo sem abrir mão de suas tensões internas. Agora, resta o eco. Ainda assim, há frestas. “Elefantes na Névoa”, coprodução que envolve o Brasil, surge na mostra Un Certain Regard como lembrete de que a presença pode se reinventar, mesmo fora do centro.
Outra produção brasileira, essa no Mercado do Festival, será “Taxidermista”, do gaúcho Paulo Nascimento. Não são vitrines principal, mas tampouco são irrelevantes. Nelas, novas narrativas encontram espaço antes de serem absorvidas ou ignoradas no circuito dominante.
Enquanto isso, Cannes mantém seu jogo de prestígio. Park Chan-wook, de “A Criada”, preside o júri da competição. E duas figuras históricas do entretenimento mundial, Peter Jackson e Barbra Streisand, recebem a Palma de Ouro honorária, entre 12 e 23 de maio, na França.
