Marcos Santuario

Estratégia uruguaia ‘de cinema’

Na América Latina, onde talento nunca foi o principal problema do audiovisual, a diferença paira sobre a capacidade de transformar vocação cultural em estratégia de Estado

'Senna', da Netflix, teve filmagens no Uruguai
'Senna', da Netflix, teve filmagens no Uruguai Foto : Alan Roskyn/ Netflix / Divulgação / CP

O cinema pode atravessar fronteiras pela tela, mas a indústria audiovisual precisa de políticas públicas para atravessar fronteiras com câmeras, equipes, investimentos e empregos. O Uruguai parece compreender essa equação e acaba de reforçar sua posição no mapa internacional da produção com um novo incentivo fiscal que oferece crédito equivalente a 30% dos gastos elegíveis realizados no país.

A ação deve atrair ainda mais filmes estrangeiros e iniciativa sinaliza a escolha de transformar o audiovisual em motor de desenvolvimento econômico e cultural. Anunciado pela Agência do Cinema e do Audiovisual do Uruguai (ACAU) e pelo programa Uruguay Audiovisual, o Tax Credit Uruguay Audiovisual contempla produções, coproduções e muito mais.

Na disputa por investimentos internacionais, o país vizinho sabe que as paisagens atraentes não bastam. É preciso oferecer segurança jurídica, estabilidade econômica, infraestrutura, profissionais qualificados e condições competitivas. O novo instrumento se soma ao Programa Uruguay Audiovisual e a benefícios como a isenção de IVA para serviços destinados ao exterior. O resultado é uma política de atração que procura dar previsibilidade às empresas e ampliar oportunidades para profissionais locais.

A concorrência regional é intensa. A Colômbia oferece incentivo fiscal de 35% para determinadas despesas audiovisuais e logísticas; o Chile prevê reembolsos de até 30%, podendo chegar a 40% em produções realizadas fora da Região Metropolitana. No Brasil, São Paulo dispõe de mecanismos de reembolso entre 20% e 30% para produções internacionais, sujeitos às regras e à disponibilidade de recursos. Atrair uma filmagem é importante; construir uma indústria capaz de sobreviver entre uma produção e outra é ainda mais.

A mensagem é de que o cinema também é economia, emprego, tecnologia e projeção internacional. Na América Latina, onde talento nunca foi o principal problema, a diferença paira também sobre a capacidade de transformar vocação cultural em estratégia de Estado.

Para o Brasil, a questão é estratégica e significa, além de produzir boas histórias, também disputar os investimentos, os empregos e a infraestrutura que fazem essas histórias acontecer. Na economia do audiovisual, talento abre portas. Política pública consistente ajuda a mantê-las abertas.