Marcos Santuario

Fora preconceito

A coleção ‘Assista Aos Seus Livros Favoritos’ escancara que nunca se leu tanto depois de assistir algo

‘Bom Dia, Verônica’ é uma das brasileiras selecionadas
‘Bom Dia, Verônica’ é uma das brasileiras selecionadas Foto : Netflix / Divulgação / CP

Durante muito tempo, adaptar um livro para o cinema ou para a televisão parecia um exercício de tradução. Hoje, é uma conversa entre linguagens. As páginas não perdem espaço, e encontram uma nova forma de existir. A decisão da Netflix de criar a coleção “Assista Aos Seus Livros Favoritos” escancara que nunca se leu tanto depois de assistir algo. Essa é uma das maiores transformações da indústria cultural contemporânea.

O fenômeno é poderoso porque desmonta um velho preconceito. A adaptação deixou de ser vista como uma versão inferior da obra literária para assumir o papel de porta de entrada para novos leitores. O sucesso recente comprova isso. Quando uma produção conquista milhões de espectadores, o livro frequentemente retorna às listas de vendas.

O peso da seleção apresentada pela plataforma confirma essa tendência. São clássicos universais como “Frankenstein”, que dividem espaço com fenômenos contemporâneos como “Bridgerton”, “Enola Holmes” e “Lupin”, enquanto a produção latino-americana ocupa posição de destaque com títulos de enorme relevância cultural. Obras brasileiras como “Bom Dia, Verônica”, “Pssica”, “O Filho de Mil Homens” e “A Hora da Estrela” dialogam com produções marcantes como “O Eternauta”, da Argentina, “Rosario Tijeras”, do México, e “Cem Anos de Solidão”, uma das adaptações mais aguardadas da literatura latino-americana.

O resultado é um catálogo que atravessa épocas, gêneros e estilos. Há romances, suspense, fantasia, dramas históricos, quadrinhos, mangás, webtoons e histórias reais. Essa diversidade revela que a boa narrativa não pertence a um único formato, e sobrevive à mudança de linguagem porque nasce da força de seus personagens, conflitos e emoções. Os números ajudam a explicar essa revolução. Em 2025, adaptações literárias responderam por quase um quinto de todo o consumo da Netflix, acumulando mais de nove bilhões de visualizações.