Marcos Santuario

Jorge Drexler chega com ‘Taracá’

Artista volta ao palco de Porto Alegre, entre hoje e domingo, algo maior do que uma sequência de shows lotados no Auditório Araújo Vianna

Com mais de três décadas de carreira, Drexler passou os últimos anos viajando com a turnê de “Tinta y Tiempo” (2022), que percorreu mais de 35 países e agora apresenta seu novo trabalho em Porto Alegre.
Com mais de três décadas de carreira, Drexler passou os últimos anos viajando com a turnê de “Tinta y Tiempo” (2022), que percorreu mais de 35 países e agora apresenta seu novo trabalho em Porto Alegre. Foto : Ricardo Giusti / CP Memória

Há artistas que escrevem canções e outros que escrevem épocas. Jorge Drexler pertence à segunda categoria. E talvez seja justamente por isso que Porto Alegre esteja preparado para viver, nesta sexta-feira e sábado, às 21h, e domingo às 19h, algo maior do que uma sequência de shows lotados no Auditório Araújo Vianna (Osvaldo Aranha, 685). O que chega à cidade não é apenas um músico vencedor do Oscar e de múltiplos Grammys Latinos. É um dos raros artistas contemporâneos capazes de transformar delicadeza em evento coletivo.

A rapidez quase obsessiva com que os ingressos desaparecem, quando anunciados à venda, revela algo que vai além da prestígio internacional. Drexler construiu, ao longo de mais de três décadas, uma relação rara com o público latino-americano. E ocupa o palco mais como alguém disposto a compartilhar perguntas do que como estrela inalcançável. Talvez por isso seus concertos tenham se tornado experiências de pertencimento, encontros em que poesia, política, memória e afeto deixam de ser conceitos abstratos e ganham corpo, respiração e ritmos.

Existe algo profundamente simbólico em vê-lo retornar a Porto Alegre justamente agora, aos 60 anos, carregando “Taracá”, um disco que é simultaneamente íntimo e continental. O álbum nasce do candombe afro-uruguaio, mas recusa qualquer exotismo folclórico. Drexler não revisita raízes para transformá-las em lembrança cultural, e mergulha nelas para entender o que significa permanência humana num tempo marcado por dispersão, violência e excesso de velocidade emocional.

Confira a entrevista:

“Taracá”, palavra inventada a partir da pulsação do tambor chico, carrega outra camada poderosa: “estar acá”. Estar aqui. Presente. Num mundo dominado por distrações permanentes, uma ideia parece quase revolucionária. Drexler transforma essa presença em linguagem artística. Sua música desacelera sem perder intensidade. Faz pensar sem abandonar o corpo. É sofisticado sem ser elitista. Intelectual sem romper com o transe, com a dança, com o suor coletivo da música latino-americana.

E talvez aí resida sua grandeza. Durante anos, parte da indústria tentou empurrar a música latina para caricaturas tropicais vendáveis ​​ao mercado global. Drexler fez o contrário. Mundializou a canção latino-americana sem simplificá-la. Levou o espanhol, o candombe, a melancolia rioplatense e a herança poética do sul do continente para teatros do mundo inteiro sem diluir sua identidade. Sua obra prova que universal não é aquilo que perde origem, mas aquilo que aprofunda suas próprias raízes até tocar o outro.

Não por acaso, o Brasil ocupa espaço afetivo permanente em sua trajetória. A ligação com a música brasileira atravessa décadas, desde os discos ouvidos na infância até releituras emocionantes como “O Que É, O Que É”, de Gonzaguinha, transformada por ele em festas coletivas entre samba e candombe. Drexler entende algo essencial sobre a cultura brasileira. Sabe que ela não cabe em fronteiras, pois circula, contamina, reinventa linguagens. E ele próprio se tornou parte desse fluxo.

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Quando apresentou o single de “El Fin y el Medio”, já mencionou uma das expressões mais contidas dessa atualização artística. Num momento histórico em que discursos violentos tentam aplicar o injustificável, Drexler responde com uma canção que recusa a lógica brutal do “fim justifica os meios”. Não há cinismo e nem neutralidade confortável. O que existe é humanidade.

Por isso, os shows deste fim de semana carregam dimensão especial. Porto Alegre não recebe apenas um artista premiado internacionalmente. Recebe alguém que conseguiu unir música popular e pensamento crítico sem sacrificar emoção. Um compositor que transforma silêncio em narrativa e ritmo em reflexão. Um homem que saiu do Uruguai para o mundo sem abandonar o sul dentro de si.

Entre hoje e domingo, no Araújo Vianna, talvez aconteça exatamente aquilo que grandes artistas provocam de tempos em tempos: a sensação rara de que, por algumas horas, música e vida voltam a respirar no mesmo compasso.

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