Marcos Santuario

Júris e contrastes

O Festival de Gramado encerrou sua edição neste final de semana não apenas distribuindo Kikitos, mas revelando um cinema brasileiro cada vez mais diverso e de qualidade

Os vencedores do Festival de Cinema de Gramado 2026 apontam à diversidade e talento do cinema brasileiro
Os vencedores do Festival de Cinema de Gramado 2026 apontam à diversidade e talento do cinema brasileiro Foto : Edison Vara/ Ag.Pressphoto/ Divulgação/ CP

Foram 10 dias de muita intensidade cinematográfica. O 54º Festival de Cinema de Gramado mostrou 61 filmes, sessões lotadas e uma programação que reuniu cinema, memória, formação, mercado e encontros. O festival encerrou sua edição neste final de semana não apenas distribuindo Kikitos, mas revelando um cinema brasileiro que parece cada vez menos disposto a caber em uma única moldura.

O grande vencedor foi “Nosso Segredo”, de Grace Passô. O filme mineiro levou o Kikito de Melhor Filme e ainda venceu em Fotografia e Direção de Arte. É uma escolha que diz muito sobre o momento do cinema nacional. Sem dúvida há espaço para a invenção, para a inquietação e para narrativas que não pedem licença para desafiar o olhar do espectador. Mais do que premiar um filme, o júri oficial reconheceu uma maneira de fazer cinema que aposta na linguagem como instrumento de descoberta.

Mas talvez seja justamente no contraste entre os três principais veredictos que Gramado encontre sua melhor fotografia. O Júri Oficial escolheu “Nosso Segredo”. O Júri da Crítica apontou “Leite em Pó”, de Carlos Segundo, como Melhor Longa Brasileiro, além de premiá-lo por roteiro e desenho de som. Já o público escolheu “Feito Pipa”, de Allan Deberton, que também conquistou Melhor Direção, Melhor Atriz, por unanimidade, para Teca Pereira, e Melhor Ator Coadjuvante, para Lázaro Ramos.

Três filmes. Três olhares. Três formas de reconhecer o cinema. E nenhuma delas precisa ser considerada mais legítima que a outra. Ao contrário. A força de um festival está justamente na capacidade de produzir desacordos, estimular debates e fazer com que público, crítica e júri enxerguem diferentes possibilidades dentro de uma mesma cinematografia.

É aí que a diversidade da competição ganha importância. Não se trata apenas de reunir filmes diferentes, mas de criar condições para que diferentes ideias de cinema possam conviver. Um festival que se limita a confirmar expectativas corre o risco de transformar a Curadoria em repetição. Gramado, ao longo de sua história, sabe que sua relevância está também na capacidade de provocar. E a Curadoria também sabe disso.

Os Kikitos de José Loreto e Christian Malheiros, como melhores atores, e de Naruna Costa, como atriz coadjuvante, ampliaram esse mosaico de performances e personagens. Que grandes atuações! “Gonzaguinha, da Maior Liberdade”, de Susanna Lira, reafirmou a potência do documentário. “Justino: Nos Bastidores do Reino” também encontrou reconhecimento em montagem, com uma história baseada na realidade. E “Chorão: Só os Loucos Sabem” levou o prêmio de trilha musical. São resultados que mostram como não existe um único centro de gravidade para o audiovisual brasileiro.

E talvez essa seja uma das maiores vitórias desta edição. O cinema nacional está em crescimento não apenas em quantidade, mas em diversidade de vozes, territórios, experiências e linguagens. Há filmes vindos de diferentes regiões, realizadores com trajetórias distintas, artistas consagrados dividindo espaço com novos nomes e obras que transitam entre o íntimo e o coletivo, entre a memória e o presente, entre a experimentação e a tradição.

Gramado também reafirmou que um festival de cinema não vive somente das noites de premiação. As mostras estudantis, universitárias e de formação apontam para o futuro. O Gramado Film Market, em sua décima edição, colocou em discussão mercado, políticas públicas, economia criativa e possibilidades de circulação. O Cinema nos Bairros e as sessões infantis e juvenis ampliaram a ideia de público. As homenagens lembraram que a história do cinema brasileiro é feita por muitas gerações.

Tudo isso compõe um festival que é maior que seus 40 Kikitos e mais de R$ 500 mil em prêmios. A cerimônia é o ponto de chegada, mas também deveria ser ponto de partida. O verdadeiro legado de uma edição não está apenas em quem sobe ao palco para receber o troféu, mas nos filmes que continuam circulando, sendo discutidos, vistos e lembrados.

Gramado termina, portanto, longe de uma unanimidade. E ainda bem. Festival não deveria ser lugar de consenso absoluto. Deve ser território de encontro, confronto e descoberta. As escolhas curatoriais, os veredictos dos júris e a reação do público formam uma espécie de retrato coletivo do nosso tempo. E o retrato deixado pela 54ª edição é o de um cinema brasileiro inquieto, plural e em movimento.

O último Kikito foi entregue em uma noite festiva, que se torna mais um momento histórico do cinema nacional. As luzes se apagaram. Mas a conversa apenas começou. Porque um festival só cumpre plenamente sua missão quando seus filmes deixam a cidade e continuam provocando perguntas em quem os viu. E, neste sentido, Gramado não termina quando termina. Continua em cada tela, em cada debate e em cada espectador que sai da sessão levando consigo algo que não estava lá quando entrou. Afinal, os filmes que vão para Gramado não vão para morrer em Gramado, mas sim para nascer lá.