Noventa anos depois de sua morte, Fernando Pessoa ainda ri de nós. Não um riso zombeteiro, mas um sorriso intranquilo, feito de máscaras e abismos. Foi ele quem levou às últimas consequências a arte de “outrar-se”, fazendo da própria identidade laboratório alquímico. Ricardo Reis, seu primeiro e mais longevo heterônimo, reaparece em edição monumental, com toda a arquitetura estoica de versos, como se o próprio Pessoa fizesse, neste aniversário, um gesto final.
Ele nos lembra que ninguém escreve sozinho, que cada poeta é uma república de almas. Fernando Pessoa morreu em 1935; suas criaturas seguem vivíssimas, corrigindo a métrica, desobedecendo à ortografia moderna e ensinando o leitor apressado do TikTok que literatura é forma de permanecer indomável.
Neste mesmo novembro simbólico, Woody Allen completa 90 anos, cumprindo ironicamente o desejo de seu personagem de “Morte”, que sonhava envelhecer até os noventa, velado sob lágrimas protocolares. Allen, porém, continua vivo demais, talvez até inconvenientemente vivo para uma época que adora cancelar antes de compreender.
Como Pessoa fez de si uma multidão, Allen fez de Nova Iorque uma extensão de sua psique. Ruas como neurônios, avenidas como lapsos freudianos, o caos urbano transformado em rito de expiação. Seu cinema, entre o riso e a angústia, entre Gershwin e a chuva insistente, oferece à cidade o mesmo que Pessoa ofereceu à língua portuguesa. Dá um espelho inquietante, cheio de fissuras.
Ambos, cada qual ao seu modo, criaram topografias íntimas. Pessoa cartografou o interior humano com heterônimos. Allen, o mundo externo com neuroses. Um expandiu a literatura até o limite da identidade. O outro fez do cinema uma confissão interminável. Entre Lisboa e Manhattan, entre o verso e o fotograma, ambos nos lembram que a maior coragem é justamente continuar criando.
