Marcos Santuario

Metáfora nas telas

Mercedes Morán é o coração desta co-produção entre Argentina e Brasil
Mercedes Morán é o coração desta co-produção entre Argentina e Brasil Foto : Léo Bittencourt / Divulgação / CP

Está em cartaz nos cinemas brasileiros “À Procura de Martina”, drama sensível e necessário dirigido por Márcia Faria. A obra mergulha em uma das feridas mais profundas da América Latina: o sequestro de bebês durante a ditadura militar argentina, a partir das vivências reais das incansáveis “Avós da Praça de Maio”. A história da protagonista, uma avó que enfrenta não apenas a distância e o silêncio, mas também os efeitos do Alzheimer, é um retrato poderoso da resistência feminina diante da barbárie. Quem conduz essa travessia com impressionante delicadeza é a consagrada atriz argentina Mercedes Morán, reconhecida internacionalmente por sua atuação em “Diários de Motocicleta”. Aqui, Mercedes Morán entrega uma performance comovente, feita de silêncios densos e olhares que carregam décadas de dor e esperança. É por meio dela que o público vivencia o peso do tempo, da perda e da memória em erosão. A atuação da atriz é, sem dúvida, o coração do filme.

Ao lado de Mercedes, as brasileiras Luciana Paes e Carla Ribas enriquecem o elenco e simbolizam o entrelaçamento de histórias que atravessam fronteiras. Afinal, “À Procura de Martina” é também uma poderosa metáfora sobre a importância das coproduções latino-americanas. Ao unir Argentina e Brasil, o longa reafirma como a memória coletiva do continente — marcada por ditaduras, exílios e reencontros — pode e deve ser contada de forma conjunta, solidária, sensível. Premiado pelo voto popular como Melhor Filme no Festival de Mar del Plata (Argentina) e no Festival de Cinema do Uruguai, o longa emociona não apenas por sua temática urgente, mas por sua execução cuidadosa. O roteiro navega com fluidez entre o passado traumático e o presente fragmentado, enquanto a direção de Márcia Faria costura imagens e emoções com rara precisão poética.