Sob a aura do Dia dos Pais, é fácil cair na tentação dos clichês. Mas o cinema brasileiro, como sempre, escolhe o caminho mais corajoso: o da verdade. Em “A Melhor Mãe do Mundo”, de Ana Muylaert, exibido com aplausos emocionados no Festival de Berlim, e em cartaz nos cinemas, o protagonismo é de uma mãe. Sim, Gal, vivida magistralmente por Shirley Cruz, carrega nas costas, e na carroça, seus dois filhos, enquanto foge da violência doméstica e da opressão que insiste em silenciar tantas mulheres no Brasil. Mas e o pai? O que dizer de Leandro, personagem intenso e humano interpretado por Seu Jorge? Ele não é um herói. Longe disso. É a figura do agressor, o reflexo de uma masculinidade tóxica e corrompida. Ainda assim, ele é pai. E é por isso que essa história nos provoca. Porque nos obriga a encarar a paternidade sob outra lente: a de quem falha, fere, abandona, mas cuja ausência também pesa.
É neste vácuo de afeto e proteção que Gal se agiganta. Ela não apenas assume o papel de mãe, mas também o de pai, de guia, de escudo. E talvez seja exatamente aí que o filme nos toca com mais força: ao revelar que ser pai não é um título biológico, mas uma escolha diária, um compromisso com a segurança emocional e física dos filhos. “A Melhor Mãe do Mundo” não nos oferece conforto, oferece espelhos. E, nestes momentos que rodeiam o Dia dos Pais, que melhor presente podemos dar a nós mesmos do que a coragem de olhar para essas verdades? O filme de Ana Muylaert é um grito silencioso por novas masculinidades, por pais presentes de verdade. Não só de corpo, mas de afeto, de escuta, de responsabilidade. Porque ser pai não é exercer poder. É oferecer porto. E, quando isso falha, é a mãe, essa mãe, que vira mundo. Está aí um filme para ser apreciado e sentido. Para sermos melhores pais. E que estejamos à altura do amor que nos é confiado.
