Enquanto “O Agente Secreto avança como maior aposta brasileira rumo ao Oscar 2026, há um adversário silencioso e perigosamente íntimo. Vindo do norte da Europa, “Valor Sentimental”, da Noruega, não grita, não explode, não corre. Ele observa. E é justamente aí que mora sua força: no incômodo que cresce devagar, como rachadura em casa antiga.
No Globo de Ouro, o filme de Joachim Trier foi o único a sair premiado entre os concorrentes diretos de “O Agente Secreto”, que brilhou como Filme em Língua não Inglesa. “Valor” levou melhor ator coadjuvante para um devastador Stellan Skarsgård. Vencedor do Grand Prix em Cannes, o filme é sobre reforma, mas não daquelas que resolvem. Aqui, consertar é expor.
Trier, fiel ao seu cinema de intimidade, volta o olhar para duas irmãs, Nora e Agnes, unidas pelo luto e separadas pela forma como lidam com ele. Nora é atriz, transforma dor em matéria-prima; Agnes protege, sustenta, silencia. Entre elas, a ausência da mãe morta há dez anos ainda ocupa espaço físico, paredes, móveis, memórias.
A casa da família não é cenário: é personagem. É ali que o passado insiste em bater à porta, sobretudo quando surge o pai ausente, Gustav Borg, cineasta célebre vivido por Skarsgård, trazendo consigo uma ferida mal cicatrizada e uma proposta tão profissional quanto cruel. Quando Nora recusa, entra em cena Rachel Kemp (Elle Fanning), presença magnética e perturbadora, espécie de espelho estrangeiro do que poderia ter sido.
Com roteiro assinado ao lado de Eskil Vogt, Trier aposta numa narrativa fragmentada, polifônica, que vai e volta no tempo como quem testa a resistência da memória. O resultado é um filme que não oferece catarse fácil, oferece reconhecimento. E isso, no circuito de prêmios, pesa. “O Agente Secreto” tem diante de si não apenas um concorrente, mas um espelho incômodo, que prova que, às vezes, o maior suspense não está no segredo, mas no que a família insiste em esconder.
