Marcos Santuario

Nossas façanhas nas telas

O cinema gaúcho não pode depender apenas de datas comemorativas ou eventos pontuais

Entre ações no universo das telonas a aplaudir está o RodaCine
Entre ações no universo das telonas a aplaudir está o RodaCine Foto : Leonardo Leon / Divulgação / CP

O cinema gaúcho deixa de ser apenas tela para se tornar gesto coletivo. Não se trata apenas de assistir a filmes. Trata-se de ocupar espaços, provocar encontros e reafirmar uma identidade cultural que insiste em existir, mesmo diante de ciclos de crise, descaso e reconstrução. Há alguns destaques do momento. Quando a Cinemateca Capitólio celebra seus 11 anos, em meio às comemorações do último dia 27, dia do cinema gaúcho, não é apenas uma homenagem ao passado. É um gesto político. É lembrar que o cinema brasileiro, e o gaúcho dentro dele, precisa ser constantemente revisitado, restaurado e, sobretudo, reencenado no imaginário contemporâneo.

Lindo ver também, em dia especial, a Praça dos Açorianos se transformando em sala de cinema a céu aberto com “Saneamento Básico - o Filme”, de Jorge Furtado. E talvez não exista escolha mais simbólica. Trata-se de uma obra que ironiza a precariedade das políticas públicas enquanto exalta o poder transformador da cultura. Ainda é de aplaudir a iniciativa do projeto Fundação Cinema RS (Fundacine), ao lançar o RodaCine nos bairros. Projeto que amplia ainda mais esse movimento, levando cinema gratuito às periferias. E não é caridade cultural, mas sim estratégia de formação de público, de democratização do acesso e de reocupação dos espaços públicos. E, em paralelo, os 40 anos do Instituto Estadual de Cinema (Iecine) e o anúncio de novos editais com investimentos robustos indicam que há caminhos possíveis.

O mesmo vale para o Festival de Cinema de Gramado, que, a cada ano, segue renovando o compromisso de projetar a produção local, em longas e curtas-metragens, para o país e o mundo. Mas é preciso dizer o óbvio. Nada disso se sustenta sem continuidade. O cinema gaúcho não pode depender apenas de datas comemorativas ou eventos pontuais. Ele precisa de investimento permanente, de distribuição eficaz, de visibilidade nacional e inserção internacional. Estas semanas são convite e um teste, para reconhecer o valor do que é produzido aqui.