Marcos Santuario

O agente de prêmios

Com as indicações ao Globo de Ouro, filme de Kléber Mendonça ganha ainda mais força na corrida ao Oscar 2026

Produção brasileira está na lista de indicados ao Globo de Ouro 2026, ampliando possibilidades no Oscar
Produção brasileira está na lista de indicados ao Globo de Ouro 2026, ampliando possibilidades no Oscar Foto : Vitrine Filmes / Divulgação / CP

A indicação de "O Agente Secreto" ao Globo de Ouro 2026 não é apenas um feito isolado, é um recado, quase um golpe na mesa, de que o cinema brasileiro não aceita mais o papel de coadjuvante na conversa global. A presença do filme nas categorias de Melhor Filme Internacional, Melhor Filme de Drama e, sobretudo, a indicação de Wagner Moura como Melhor Ator de Drama, juntos, formam um movimento tectônico: o Brasil entrou oficialmente no tabuleiro dos grandes prêmios, disposto a jogar de igual para igual.

Na disputa de Melhor Filme Internacional, o longa enfrenta concorrentes de peso: o delicado "Foi Apenas um Acidente", da França; o tenso e politizado "No Other Choice", da Coreia do Sul; o norueguês "Valor Sentimental"; e o poderoso documento humano de "A Voz de Hind Rajab", da Tunísia. É um lineup de respeito, justamente por isso a presença brasileira tem ainda mais sabor. Enquanto os adversários apostam em lirismo, denúncia social ou minimalismo nórdico, "O Agente Secreto" chega como um thriller político com pulsação própria, que mistura realismo latino-americano com ritmo de blockbuster internacional.

Não é só uma escolha ousada dos votantes: é uma forma de dizer que a estética do sul global não precisa pedir licença. Mas é na categoria de Melhor Ator de Drama que o fenômeno ganha rosto, e que rosto. Wagner Moura, indicado ao lado de nomes-pedreira como Joel Edgerton ("Sonhos de Trem"), Oscar Isaac ("Frankenstein"), Michael B. Jordan ("Pecadores") e Jeremy Allen White ("Springsteen: Salve-me do Desconhecido"), sem esquecer do sempre magnético Dwayne Johnson, aqui num raro papel dramático, não está apenas representando. Ele está competindo para ganhar. Moura surge como um corpo estranho nessa paisagem hollywoodiana, e talvez seja justamente essa fricção que o torne tão inevitável. Sua interpretação em "O Agente Secreto" não é só sólida: é incendiária, desconfortável, e deixa claro que ele não está apenas atuando, está fazendo política por outras vias. E então surge a pergunta que paira como fumaça sobre Los Angeles: o que isso significa para o Oscar 2026? Muito. Talvez tudo. O Globo de Ouro, apesar de suas idas e vindas institucionais, continua sendo uma vitrine decisiva, um termômetro

visível para os eleitores da Academia. Caso o filme brasileiro saia premiado e, principalmente, caso Moura vença sua categoria, o caminho para uma indicação ao Oscar deixa de ser sonho improvável e passa a ser rota de voo.

"O Agente Secreto" chega ao Globo de Ouro como intruso, mas pode muito bem sair de lá como favorito emergente. Se o Brasil conquistar espaço agora, dezembro de 2025 pode ser lembrado como o mês em que a corrida do Oscar mudou de direção, e começou a falar português.