Marcos Santuario

O Cinema não é neutro

Após dois anos, Kleber Mendonça Filho retorna ao Tiff em Toronto, que ocorre de 4 a 14 de setembro, agora com "O Agente Secreto" concorrendo na mostra Special Presentations
Após dois anos, Kleber Mendonça Filho retorna ao Tiff em Toronto, que ocorre de 4 a 14 de setembro, agora com "O Agente Secreto" concorrendo na mostra Special Presentations Foto : Jemal Countess / Getty Images / AFP / CP Memória

Em um mundo saturado por narrativas hegemônicas, festivais internacionais de cinema como os de Veneza e Toronto não são apenas vitrines de glamour. São trincheiras de disputa simbólica. São nesses espaços que o cinema se afirma não apenas como arte, mas como território político, cultural e identitário. Ignorar a potência desses eventos é aceitar passivamente que apenas algumas vozes conduzam o imaginário global. E o Brasil, com toda sua complexidade estética, social e histórica, precisa, e merece, estar nesse debate.

Quando "O Pagador de Promessas", de Anselmo Duarte, conquistou a Palma de Ouro em Cannes em 1962, o mundo foi obrigado a olhar para o sertão brasileiro e suas contradições religiosas e sociais. Décadas depois, "Cidade de Deus", de Fernando Meirelles, indicado ao Oscar e aclamado em diversos festivais, escancarou a violência urbana com uma estética tão crua quanto inovadora. Não foram apenas vitórias de bilheteria ou prêmios em prateleiras. Foram vitórias simbólicas, aberturas de janelas para que o mundo enxergasse o Brasil para além do estereótipo exótico. Mais recentemente, "Democracia em Vertigem", de Petra Costa, foi indicado ao Oscar, o mesmo ocorreu com "Ainda Estou Aqui", que acabou nos trazendo a estatueta. Enquanto "Bacurau", "Aquarius", "Retratos Fantasmas", e "O Agente Secreto", todos de Kleber Mendonça Filho, encantaram Cannes e conquistaram o mundo com ousadias híbridas entre faroeste, ficção científica e denúncia social e política. Essas produções não pedem licença: elas invadem, questionam, desestabilizam.

Festivais como o de Veneza e Toronto funcionam como grandes radaristas do que o cinema mundial tem de mais pulsante e inovador. Eles legitimam narrativas que desafiam o status quo e criam pontes entre culturas. Para o cinema brasileiro, marcado historicamente por ciclos de ouro e colapsos políticos, essa visibilidade internacional não é só desejável, é estratégica. É nesses palcos que o Brasil pode disputar narrativas, desmontar clichês e, principalmente, assegurar que suas vozes plurais sejam ouvidas. Num cenário em que o mercado audiovisual é dominado por potências norte-americanas, cada prêmio conquistado por uma produção brasileira é um ato de resistência, um grito que atravessa fronteiras e prova que o Brasil tem muito mais a dizer. E que o mundo precisa ouvir.