Marcos Santuario

O necessário ‘Sirât’

Escolhido pela Espanha para disputar uma vaga no Oscar 2026, filme é outro concorrente com ‘O Agente Secreto’

Produção tanta levar Oscar de Filme Internacional para a Espanha
Produção tanta levar Oscar de Filme Internacional para a Espanha Foto : Neon / Divulgação / CP

Entre a música eletrônica que vibra nas montanhas de Marrocos e o silêncio abrasador do deserto, Sirât surge como experiência-limite. Vencedor do Prêmio do Júri no Festival de Cannes, o longa abriu a 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo na Sala São Paulo, e reafirma a trajetória de Oliver Laxe, cineasta acompanhado pelo evento desde seus primeiros passos.

Na trama, pai e filho vagam por raves e dunas em busca da filha desaparecida. A promessa de transcendência vira provação. Há quem chame de sádico, quem veja apenas ruído e brutalidade. Mas talvez o incômodo seja o ponto. Laxe filma como quem esfrega areia nos olhos do espectador para obrigá-lo a enxergar. Se o deserto é metáfora, ele não está para oferecer um ambiente simples.

Escolhido pela Espanha para disputar uma vaga no Oscar 2026, Sirât entra na corrida de Melhor Filme Internacional lado a lado com “O Agente Secreto”. Dois filmes que, por caminhos opostos e projetam identidades nacionais para além de suas fronteiras. A polêmica incendiou as redes quando Laxe ironizou a excitação brasileira nas votações da Academia. A ocorrência foi imediata: críticas, ataques, nacionalismos à flor da pele. O episódio revela mais sobre nós do que sobre o filme.

Porque o Oscar, gostemos ou não, é menos uma guerra de bandeiras e mais uma arena de circulação simbólica. A categoria internacional existe como ponte. Uma integração audiovisual mundial que permite que histórias marroquinas, espanholas, brasileiras ou coreanas dialogem no mesmo palco. Transformar isso em competição descabida é reduzir o cinema a torcida organizada.

O filme de Laxe, entre vaias e êxtases, reafirma que o cinema ainda pode ser território de risco. E, no fim, talvez seja essa a verdadeira travessia. O fato de sair da sala menos confortável, porém mais consciente de que a arte não precisa ser consenso para ser necessidade.