Marcos Santuario

Para inglês ver e aplaudir

‘Brazil on Film’, na Inglaterra, surge como resistência e expansão cultural

‘Marte Um’ é uma das produções selecionadas
‘Marte Um’ é uma das produções selecionadas Foto : Embaúba Filmes / Divulgação / CP

O cinema brasileiro ocupa, durante dois meses, o coração do British Film Institute, em Londres. O BFI Southbank, de maio a junho, não é apenas uma sala de exibição, é um templo da memória audiovisual mundial. É um espaço onde cinematografias são legitimadas, revisitadas e inseridas na conversa global sobre arte, linguagem e identidade. E agora, é o Brasil quem toma a tela.

“Brazil on Film” surge como resistência e expansão cultural. Ver obras brasileiras ocupando o maior centro de cinema de Londres é perceber que nosso cinema nunca dependeu apenas de mercado, mas muito de insistência.

A curadoria de Renata de Almeida e Adriana Rouanet compreende isso ao evitar o caminho óbvio. Não se trata apenas de desfilar clássicos já celebrados internacionalmente, mas há um desejo claro de provocar descoberta. De abrir espaço para novos olhares britânicos sobre um cinema múltiplo, contraditório, feroz e profundamente vivo.

Também desmonta a caricatura do “cinema brasileiro” como bloco único. Aqui convivem “Deus e o Diabo na Terra do Sol” e “Marte Um”, “Cidade de Deus” e “Que Horas Ela Volta?”, o terror revolucionário de José Mojica Marins, o abismo social de Eduardo Coutinho e a delicadeza brutal de uma nova geração que já nasce olhando o Brasil.

A mostra evidencia um país cinematográfico que sempre foi maior que o eixo Rio-São Paulo. O cinema indígena, amazônico, periférico e negro deixa de ocupar a margem da programação para se tornar parte central da narrativa brasileira. Isso muda tudo. Porque internacionalizar o cinema nacional não é exportar um folclore exótico. É mostrar complexidade.

Há também um detalhe fundamental: enquanto plataformas transformam filmes em conteúdo descartável, o BFI oferece ritual. Debate. Contexto. Experiência coletiva. O Brasil não está apenas sendo exibido em Londres — está sendo estudado, discutido e absorvido como patrimônio cultural contemporâneo.

E isso tem peso histórico.

Porque cada sessão dessa mostra ajuda a manter aberta uma porta que o próprio Brasil, tantas vezes, insiste em fechar para seus artistas.