Marcos Santuario

Sem estatuetas, mas com o mundo de olho

“O Agente Secreto” saiu do Oscar 2026 sem troféus nas quatro categorias em que concorria
“O Agente Secreto” saiu do Oscar 2026 sem troféus nas quatro categorias em que concorria Foto : Victor Jucá / Divulgação / CP

Na noite em que as estatuetas mudam de mãos e os discursos tentam caber em poucos segundos, perde-se muito mais do que se imagina. E ganha-se também. “O Agente Secreto” saiu do Oscar deste ano sem troféus nas quatro categorias em que concorria. O outro brasileiro concorrente, Adolpho Veloso também não venceu em Fotografia. Mas seria um erro chamar isso de derrota simples. Há derrotas que encolhem um filme. Há outras que o colocam definitivamente no mapa. Esta pertence ao segundo tipo.
Estar entre os indicados já diz muito. A Academia de Hollywood não costuma abrir espaço por gentileza ou exotismo geográfico. “O Agente Secreto” chegou ali porque dialoga com um cinema que o mundo quer ver. É ambicioso, técnico, consciente de linguagem e disposto a contar histórias brasileiras que dialogam com o mundo. A indicação em si funciona como um carimbo simbólico de maturidade. Não é apenas um filme que deu certo. É um sistema criativo que começa a respirar melhor.
E, convenhamos, a noite também fez justiça a quem venceu. Michael B Jordan confirmou o que já vinha mostrando há anos. É um ator que combina presença física, inteligência dramática e carisma raro. O prêmio coroou uma trajetória que amadureceu diante das câmeras e que hoje representa uma geração inteira de protagonistas em Hollywood.
O mesmo vale para o norueguês “Valor Sentimental”, cujo reconhecimento pareceu inevitável desde as primeiras projeções. É o tipo de obra que encontra o público pela emoção direta e pela habilidade de transformar experiências íntimas em narrativa universal. Já “Uma Batalha Após a Outra” mostrou como o cinema contemporâneo ainda consegue surpreender pela forma e pela escala. Isso faz lembrar que espetáculo e pensamento podem caminhar juntos.
Nesse contexto, a ausência de estatuetas para “O Agente Secreto” se transforma quase em detalhe. A verdadeira vitória é outra. O filme ajudou a consolidar a percepção de que o audiovisual brasileiro vive um momento de amadurecimento. As produções nacionais começam a circular com mais naturalidade em festivais, premiações e catálogos internacionais. Há uma sensação crescente de que o Brasil deixou de ser apenas um convidado ocasional e passou a integrar a conversa.
Isso gera efeitos que vão além da cerimônia. Produtores estrangeiros passam a olhar para o país com curiosidade renovada. Coproduções se tornam mais prováveis e talentos locais ganham visibilidade. Até o público doméstico, às vezes cético com o próprio cinema, redescobre certo orgulho.
No fim das contas, o Oscar é uma fotografia de uma noite. O cinema, não. “O Agente Secreto” não levou a estatueta, mas saiu com algo mais duradouro. Deixou a prova de que o Brasil está cada vez mais presente na imaginação cinematográfica do mundo. E, quando isso acontece, as vitórias inevitavelmente acabam chegando. Aos “torcedores de cinema”, lembrem-se, ano que vem tem mais.

Veja Também