Marcos Santuario

Tarantino ao extremo

Estreia de ‘Kill Bill – The Whole Bloody Affair’ não é apenas mais um relançamento nos cinemas

A produção 'Kill Bill the Whole Bloody Afair' mostra a intensidade do cinema de Tarantino
A produção 'Kill Bill the Whole Bloody Afair' mostra a intensidade do cinema de Tarantino Foto : Paris Filmes / Divulgação / CP

Quentin Tarantino nunca foi exatamente um diretor. Sempre foi um acontecimento, um ruído cultural. Um cineasta que entra em cena chutando a porta da sala escura e lembrando ao espectador que cinema não é apenas narrativa, é gesto, excesso, memória afetiva, vingança estilizada e prazer culpado assumido sem pedido de desculpas. Por isso, a estreia de “Kill Bill – The Whole Bloody Affair”, em 5 de março, não é apenas mais um relançamento nos cinemas. É um ajuste de contas histórico com o cinema contemporâneo, e com o próprio Tarantino.

A pré-venda já está aberta para a versão definitiva da obra que consolidou Tarantino como um autor pop no sentido mais radical do termo. Radical porque ele não suaviza, transforma violência em coreografia, silêncio em ameaça e referências em linguagem própria. Aqui está “Kill Bill” como sempre deveria ter sido visto. Volume 1 e Volume 2 fundidos em um único corpo cinematográfico de 275 minutos. Tem cenas inéditas, uma nova sequência de animação e um intervalo clássico, com aviso: respire fundo, porque ainda há sangue pela frente.

A Noiva, interpretada pela genial Uma Thurman, em seu papel mais icônico, segue sendo uma das grandes figuras trágicas do cinema recente. Dada como morta, traída, baleada e roubada de seu futuro, ela se levanta, e o cinema se levanta com ela. Tarantino constrói aqui uma saga de vingança que dialoga com o faroeste, o chambara japonês, o exploitation, o melodrama e a ópera. Lucy Liu, Vivica A. Fox, Daryl Hannah, Michael Madsen, Gordon Liu, Sonny Chiba, Michael Parks e David Carradine formam um elenco que parece existir apenas para provar que exagero, quando bem dirigido, vira estilo.

Exibido pela primeira vez em Cannes, em 2006, “The Whole Bloody Affair”, agora, ganha as telas brasileiras como merece. Em tempos de narrativas assépticas, universos calculados por algoritmo e emoções com prazo de validade, Tarantino segue lembrando que cinema também pode ser risco, duração excessiva, violência estilizada e prazer puro