Marcos Santuario

Tom iraniano no Oscar

Mais um importante concorrente na lista do Oscar 2026, no caminho do filme brasileiro

'Foi Apenas um Acidente' é outro oponente de peso na corrida do Oscar de Melhor Filme Internacional deste ano
'Foi Apenas um Acidente' é outro oponente de peso na corrida do Oscar de Melhor Filme Internacional deste ano Foto : Imovision / Divulgaçõ / CP

Na corrida pelo Oscar de Melhor Filme Internacional, há anos não se vê um duelo tão simbólico quanto o que se desenha entre Foi Apenas um Acidente, de Jafar Panahi, e o brasileiro “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho. Não é apenas uma disputa entre países, mas entre modos de entender o cinema contemporâneo. De um lado, a contenção ética radical; do outro, a pulsão narrativa que revisita a história para ferir o presente.

O filme iraniano, vencedor da Palma de Ouro em Cannes 2025, chega à temporada com um currículo avassalador. Além do prêmio máximo do maior festival do mundo, Panahi acumulou Gotham Awards de Melhor Filme Internacional, Direção e Roteiro Original; venceu o New York Film Critics Circle como Melhor Diretor; levou o prêmio da Sociedade Nacional de Críticos pelo roteiro e recebeu um AFI Special Award. Poucos longas internacionais, nos últimos anos, chegaram ao Oscar com tamanha unanimidade crítica.

Jafar Panahi é um dos cineastas mais importantes do século XXI. E “Foi Apenas um Acidente” transforma um evento em um abismo moral. Acreditando que encontrou o homem que o torturou na cadeia, um mecânico convoca outros ex-prisioneiros para decidir se seu refém é mesmo quem ele acredita ser e, se for, o que fazer com ele.

Panahi, que já venceu o Urso de Ouro (“O Círculo”) e o Urso de Prata (“Táxi Teerã”), filma como quem resiste. Condenado pelo regime iraniano a décadas de censura, construiu uma obra onde cada silêncio é político e cada gesto cotidiano carrega o peso da repressão.

Se o Oscar for coragem estética, Panahi. Se for potência narrativa e ressonância histórica, o Brasil sonha. Em qualquer cenário, o que se confirma é que o cinema contemporâneo não quer mais respostas fáceis. Quer filmes que incomodem. E nisso, ambos já venceram.