Marcos Santuario

Um zelador argentino de muito sucesso

A quarta temporada de ‘Meu Querido Zelador’, disponível no Disney+, tem uma provocação inquietante

Guillermo Francella vive o personagem ambíguo e cativante na série
Guillermo Francella vive o personagem ambíguo e cativante na série Foto : Disney + / Divulgação / CP

A pergunta ecoa pelos corredores: até onde vai o poder de um homem que sempre soube abrir portas e fechá-las com a mesma precisão? A quarta temporada de “Meu Querido Zelador”, disponível no Disney+ tem uma provocação inquietante. E Eliseo não for mais apenas o guardião de um prédio, mas o arquiteto silencioso de um sistema inteiro?

Interpretado com hipnótica ambiguidade por Guillermo Francella, Eliseo ascende ao topo, não apenas social, mas moralmente. E é justamente lá, onde o ar é mais rarefeito, que começam as fissuras. A nova temporada, criada pelos argentinos Mariano Cohn e Gastón Duprat, abandona qualquer ilusão de conforto. O poder cobra, e a conta chega na forma de conspiração, liderada por outro personagem intenso, Matías Zambrano.

O duelo entre os dois ultrapassa o pessoal e se torna quase uma tese sobre ambição, deixando em suspense até onde vale ir para não cair. Eliseo, que já foi zelador, confidente, manipulador e salvador, agora é também ameaça. Seu prédio, antes microcosmo de relações humanas, vira campo de batalha. E talvez o maior risco não seja perder tudo, mas descobrir que nunca houve nada a perder.

Fora da ficção, a realidade responde com reverência. Guillermo Francella será homenageado, neste início de maio, na Riviera Maya, nos Prêmios Platino 2026 com o Prêmio de Honra. A honraria consolida ainda mais uma trajetória que desafia rótulos. Do humor popular ao desconforto dramático do oscarizado “O Segredo de Seus Olhos”, sua carreira é um exercício contínuo de deslocamento. Em “O Clã”, mergulhou na escuridão humana.

Em “Meu Querido Zelador”, parece sintetizar tudo, o riso, o controle, o abismo. Hoje Francella representa um tipo de presença rara. Aquela que não pede empatia, mas exige atenção.

E talvez seja esse o verdadeiro motor da nova temporada. Não mais torcer por Eliseo, mas observá-lo. Com desconforto. Com fascínio. Com a suspeita incômoda de que, no fundo, ele apenas levou às últimas consequências algo que sempre esteve ali.