Marcos Santuario

Uma Argentina no meio do caminho

Dolores Fonzi dirige e atua em ‘Belen’, argentino que quer Oscar
Dolores Fonzi dirige e atua em ‘Belen’, argentino que quer Oscar Foto : Prime Vídeo / Divulgação / CP

A corrida pelo Oscar nunca é apenas sobre cinema. É também sobre discurso, timing, feridas abertas e quem consegue transformar uma história local em urgência global. E, em 2026, a Argentina decidiu entrar nessa disputa mirando direto no coração e, possivelmente cruzando o caminho do brasileiro “O Agente Secreto”.

O país escolheu “Belén”, de Dolores Fonzi, filme que não pede licença nem suaviza o golpe. Baseado em caso real que abalou a Argentina, o longa transforma uma hemorragia em acusação criminal, um hospital em porta de entrada para o cárcere e uma jovem comum em símbolo involuntário de guerra moral. Não é apenas drama judicial. É um retrato incômodo de como o Estado, quando decide punir, age rápido e, quase sempre, contra mesmos corpos.

A força de “Belén” está justamente em recusar o heroísmo fácil. Julieta não é mártir, nem líder, nem porta-voz. Ela é esmagada. Cala. Some. E é nesse silêncio que o filme grita. Ao lado dela, a advogada interpretada pela própria Dolores Fonzi carrega outro peso: o da militância que resiste, mas também cansa.

Conversei com a diretora em Madri, ano passado, e confirmou suas opções cinematográficas. A câmera colada aos rostos, os tribunais frios, os corredores hostis. Tudo conspira para transformar a experiência individual em denúncia estrutural. Não é coincidência que “Belén” chegue com força. A Argentina sabe jogar esse jogo. Já venceu duas vezes, voltou recentemente com “Argentina, 1985” e entende que o Oscar gosta de filmes que confrontam sistemas injustos com clareza moral.

Agora, traz um tema que dialoga com debates globais, especialmente em um mundo onde direitos reprodutivos voltaram a ser moeda de disputa política. “Belén” não quer apenas representar a Argentina. Quer provocar, incomodar, e lembrar à Academia que, no Oscar de Filme Internacional, quem fala mais alto nem sempre é quem grita, mas quem expõe a ferida sem anestesia.