Marcos Santuario

Voz para não agradar Oscar

Vencedor do Leão de Prata, Grande Prêmio do Júri no Festival de Veneza, o filme é representante tunisiano no Oscar deste ano

Em 'A Voz de Hind Rajab', outro filme indicado ao Oscar de Filme Estrangeiro, o tema supera a forma
Em 'A Voz de Hind Rajab', outro filme indicado ao Oscar de Filme Estrangeiro, o tema supera a forma Foto : Synapse Distribution / Divulgação / CP

Indicado ao Oscar 2026 de Melhor Filme Internacional, “A Voz de Hind Rajab” (“The Voice of Hind Rajab”) coloca a Tunísia no centro de uma das disputas mais politicamente carregadas da temporada, justamente ao lado do brasileiro “O Agente Secreto”. A presença do longa de Kaouther Ben Hania na shortlist não é apenas um feito artístico; é um gesto histórico. Em um ano em que o mundo parece à beira de múltiplas fraturas, a Academia se vê diante de uma escolha que transcende o cinema.

Vencedor do Leão de Prata, Grande Prêmio do Júri no Festival de Veneza, o representante tunisiano no Oscar deste ano chega à Hollywood cercado de reconhecimento crítico e força simbólica. Mas sua maior potência não está nos prêmios, está na voz que lhe dá título.

O filme recria a noite em que Hind Rajab, uma menina palestina de seis anos, ficou presa em um carro sob fogo cruzado em Gaza, mantendo contato telefônico com voluntários do Crescente Vermelho. A diretora, conhecida por “As 4 Filhas de Olfa”, opta por um caminho radicalmente simples: transformar um pedido real de socorro no eixo absoluto da narrativa. Não há explosões espetaculares, não há manipulação sentimental evidente. Há uma voz. Uma criança. Esperando.

Essa escolha estética é, ao mesmo tempo, sua força e sua fragilidade. Na disputa com “O Agente Secreto”, obra brasileira que também dialoga com tensões políticas e memórias incômodas, “A Voz de Hind Rajab” pode encontrar resistência justamente por sua frontalidade. A Academia nem sempre premia o filme mais necessário, muitas vezes escolhe o mais palatável. Mas ignorar esta obra seria reafirmar o distanciamento confortável que ela denuncia.

Num contexto global em que o conflito entre Israel e Palestina segue produzindo manchetes, estatísticas e cadáveres, o longa tunisiano elimina a anestesia da distância. Ele nos obriga a escutar. Sua eventual vitória no Oscar não seria apenas um reconhecimento artístico, mas um posicionamento histórico: o de que o cinema ainda pode ser espaço de memória, denúncia e confronto moral.