Flavia Bemfica / Interina
Nem os fatos da última semana, e nem as expectativas sobre o que ainda pode acontecer nas próximas, vão fazer o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) deixar, por enquanto, a corrida presidencial de 2026, e indicar um sucessor. Com isto, a direita e o centro seguirão no segundo semestre com dificuldade em se reorganizar e ‘cravar’ um nome para a disputa com o presidente Lula (PT).
Comungam desta avaliação políticos de todos os espectros e especialistas do mercado ou da academia. Os motivos são claros.
“Há uma grande expectativa pela reorganização do campo da direita. O Tarcísio de Freitas (Republicanos) é esta expectativa, e o Ratinho Júnior (PSD) também. Mas, se o Bolsonaro abrir passagem, a direita e o centro se rearrajam, e ele vira ‘carta fora do baralho’. Então, é uma questão de sobrevivência, não pode recuar. Além disso, sinaliza claramente que prefere deixar seu legado para alguém da família”, enumera o especialista em análise política e presidente da agência Moove, José Luiz Fuscaldo.
Na academia, a avaliação é semelhante. “É difícil o Bolsonaro sair do tabuleiro, porque sua estratégia é outra. É a de que ele e a família sigam ‘tensionando’ o jogo. Não é uma novidade. A técnica de tensionar para provocar situações de instabilidade política que atendam a seus propósitos, culminem ou não com rupturas, e que já obtiveram sucesso antes, é a que seguiremos observando tanto da parte de Bolsonaro como da do presidente Donald Trump”, emenda o especialista em comportamento e instituições políticas Luis Gustavo Grohmann, professor do Departamento de Ciência Política da Ufrgs.
Silêncio nas redes tem primeiros reflexos
Seguir no jogo sem usar as redes sociais será um desafio a parte para o ex-presidente. Ontem, ao anunciar uma série de ações, a bancada do PL chamou coletiva com Bolsonaro para a tarde.
Um despacho do ministro Alexandre de Moraes, porém, reforçou que a proibição do uso das redes por parte do ex-presidente vale para retransmissões de terceiros. Bolsonaro cancelou entrevista ao portal Metrópoles, chegou em silêncio à reunião na Câmara dos Deputados e desistiu de participar da coletiva do PL. Mas, na saída, falou, mostrou a tornozeleira e posou para fotos, que foram parar em perfis de aliados. Agora vai ter que se explicar.
Leite também não desistiu
Apesar de aliados já apontarem que o governador Eduardo Leite (PSD) vai mesmo é disputar o Senado, ele assegura que não desistiu do sonho da presidência, e considera que o cenário só clareia ao final de 2025.
“Não desisti nada. Muita coisa vai acontecer. Mas não é uma decisão minha. Meu partido possui outro nome importante, que desponta, tem meu total respeito, e sinaliza a mesma disposição de ajudar a construir um caminho alternativo”, admite Leite.
Ele fala do governador do Paraná, Ratinho Júnior (PSD). Que cresceu na bolsa de apostas após não cair na cilada de defender Trump. E ignorar o tsunami de sexta-feira.
E diz que Tarcísio pode querer ‘caminho seguro’
Leite faz uma diferenciação quase imperceptível quando se refere ao governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), que segue como alternativa predileta do campo da direita ao nome de Bolsonaro, mas cometeu alguns deslizes na última semana. “É natural que o governador de São Paulo seja sempre um player importante no processo. Mas também é um governador que pode concorrer à reeleição. E, a depender do ambiente político, a reeleição pode se encaminhar para ele como uma decisão mais segura, confortável e justificada.”
