Taline Oppitz

O recorde vergonhoso de janeiro

Com dificuldade para barrar escalada de feminicídios, RS encerra o primeiro mês de 2026 com 11 mulheres mortas em função da violência de gênero

Protesto contra feminicídios em frente ao Palácio Piratini
Protesto contra feminicídios em frente ao Palácio Piratini Foto : Mauro Schaefer/CP

*Interina

O RS termina o primeiro mês de 2026 sem conseguir enfrentar como precisa uma tragédia sempre anunciada. O Estado contabilizou 11 feminicídios em janeiro, igualando o recorde de abril de 2025. Naquele abril, a sucessão de mortes ocorridas no feriadão da Páscoa fez disparar alertas, anúncios e iniciativas para tentar barrar os assassinatos de mulheres que perdem a vida por isto, o fato de serem mulheres. Em situações, via de regra, associadas a uma rotina de abusos e violência doméstica. Nos nove meses entre o massacre da Páscoa e este mês que termina, rodadas de reuniões envolvendo diferentes poderes e instâncias do setor público foram uma constante. Aumentaram operações policiais. Ocorreram mudanças em medidas protetivas e tornozeleiras. Uma comissão externa da Câmara dos Deputados funcionou. Foi recriada uma secretaria estadual da Mulher (com um orçamento previsto de R$ 18 milhões, é verdade). E não faltaram detentores de mandatos eletivos de todos os espectros políticos a surfar a onda do combate ao feminicídio. No final, janeiro repete abril. E o RS parece seguir tratando a violência de gênero quase que exclusivamente como uma questão de segurança pública. É muito mais do que isto. Vale sempre repetir: as mortes começam bem antes de facadas, socos fatais, disparos e estrangulamentos.

Para brasileiro ver

Em ano de eleições gerais, políticos e gestores, de novo, usaram as redes sociais neste janeiro para expressar sua ‘dor’, solidariedade, revolta e indignação com as mortes das mulheres vítimas de violência. Dá visibilidade e engajamento. E era isso. Desenvolver todos os dias políticas abrangentes, transversais e sérias, que deem conta da tragédia antes que crenças distorcidas se transformem em atos, é tão mais trabalhoso quanto efetivo. A violência contra mulheres, e os desfechos letais, não atingem só o Rio Grande. Os indicadores do Brasil também são estarrecedores. E os números vergonhosos se multiplicam em diferentes partes do mundo. O que mudam são as propostas e tentativas de soluções. No Reino Unido, por exemplo, a partir de setembro deste ano, todas as escolas de ensino Fundamental e Médio precisarão oferecer cursos obrigatórios. Os conteúdos vão tratar do combate à misoginia e aos discursos de ódio, do respeito a meninas e mulheres e de masculinidade positiva. Entre os temas que receberão atenção estão cultura incel, atividade de influenciadores masculinistas, inteligência artificial, manipulação virtual e vinculação existente entre pornografia e misoginia.